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domingo, 5 de abril de 2026

Dançando com a Lua

Conforme prometi, aqui vai o segundo texto que escrevi para a antologia "Floresta Encantada".

"No meio da floresta encantada existe uma casa amarela, onde mora um Mago que, outrora, fora muito poderoso; não que perdera seus poderes, mas já não era tão ágil como antigamente. Para se proteger, criou um portal de acesso à sua moradia que denominou “Fronteira Transparente”, onde havia um guardião que controlava a passagem das pessoas. 

Todos que o guardião liberava eram bem recebidos. Alguns ficavam por algum tempo e assim foi com três irmãs que o Mago encontrou brincando no jardim. A mais velha, Deborah (a abelha), cuidava das menores, Ana (a Bia) e Adrielle (a Dri), enquanto elas faziam formas na areia, cobrindo com pétalas de rosa. As mãozinhas ágeis das menores (Bia devia ter uns 8 anos e Dri uns 4) criavam triângulos entre triângulos e formavam estrelas de um raro brilho, que Deborah  elevou a flocos de neve (ela tinha um grande e misterioso poder). Eram fractais.

O Mago sentou numa pedra para observar melhor as formas, semelhantes e de complexidade infinita, sendo criadas, iluminando os sonhos que não seriam vistos ou as flores, esquecidas, dos caminhos percorridos.  Perguntou quem eram."- Somos o que nunca aconteceu, o que foi amado e que nunca pediu o amor. O que amou, infinitamente, no universo da imaginação." 

Passaram o dia e ficaram para o jantar. Logo após o anoitecer, Ana e Adrielle foram ao jardim. Seus olhinhos brilhavam ao procurar a Lua em algum lugar naquele infinito, onde outras estrelinhas haviam de brilhar também. Iniciaram, então, um rodopiar misterioso, com passinhos delicados. Pareciam estar de mãos dadas a seres invisíveis. Suas roupas iniciaram uma transformação e surgiram vestidos esvoaçantes de tecido suave, um azul e outro rosa, enquanto uma névoa absorvia os poucos feixes de luz em cores diversas e brilhantes. 

Cada vez mais depressa, num ritmo musical, pareciam multiplicadas de tão rápido que dançavam. Em dado momento, pareceu que a Lua assim entendeu, e, coberta inicialmente por um manto negro, materializou-se.

- Por que me chamaram, pequenas elementais?

- Queríamos companhia para dançar!

Convite aceito, a Lua tirou seu manto, mostrou todo seu esplendor e dançou!

Dessa forma é que se dança sob a luz da lua: misture as cores, os contrastes e os brilhos; envolva tudo em sentimentos. O que importa é ser grandioso, maior do que se possa alcançar; deve ser livre e real; deve ter o poder de mudar tudo o que se sente; pode até ser sombrio, mas tem que ser verdadeiro. E, quem sabe, isso deve ser amor." 


Boa Noite! Eu sou o Narrador

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

O Guardião da Fronteira

Em 2024, participei da Bienal do Livro, em São Paulo, como autor. Tive dois contos selecionados para a antologia "Floresta Encantada" e fui lá ter meus quinze minutos de gloria. A experiencia foi muito interessante, pois a antologia foi distribuída para todo o Brasil - por conta de seus diversos autores - e até alguns outros países do mundo. 

Resumindo: meus escritos vararam os mais diversos lugarejos, levando minhas ideias insanas dos tempos do "Contos de Fada?".

Como não tinha comentado a respeito, por motivos diversos, hoje lembrei e vou colocar um dos textos aqui. O outro eu coloco num outro dia...  

"Um belo dia um sujeito acordou cedo pensando em passear, mas havia uma chuva forte que prejudicou seus planos. Resolveu, então, remexer em caixas empoeiradas, cheias de lembranças e fotos, quando uma carta, dessas de baralho, caiu no chão. Abaixou para pegar e viu que havia um desenho, em preto e branco, de uma cartomante e era assinado por “risca risca”. Enquanto pensava sobre o que era aquilo, procurando detalhes, vasculhando a mente atrás da origem daquela carta, um redemoinho o sugou para dentro do desenho. Quando, digamos, caiu, foi amparado por enormes almofadas que amenizaram o tombo. Estava numa tenda, dessas de parque de diversões, onde era possível observar uma mesa com uma bola de cristal, alguns incensos acesos, e uma decoração mista de colorido e cinza. Certo que ensandecia, resolveu sair dali e foi dar num gramado. Ao olhar para trás, a tenda desaparecera e, em seu lugar, havia um jardim e observou uma discussão de uma menina com um sujeito esquisito, baixinho, de barba verde e cabelo roxo, um desses seres que não tem definição, talvez um duende, que estava sentado num banquinho cor de abóbora, para não perder a esdrúxula combinação de cores. Aparentemente era ele que protegia o lugar. 

- Para passar, precisa resolver o teste. O Mago exige!- explicou para a menina, entregando uma prancheta com algumas folhas de papel em branco e um lápis multicolorido.

Sem muito entender, primeiro ela desenhou um passarinho que tomou vida e saiu voando. Concluiu que havia uma mágica e tentou novamente com uma borboleta, conseguindo o mesmo efeito. O baixinho permanecia sério, enquanto várias imagens tomavam vida, enchendo o jardim de bichinhos que logo desapareciam. Como ele não falava nada e nem dava qualquer pista, ela pegou o lápis, desenhou uma pedra e uma tesoura, entregando a seguir para o baixinho, que sentado estava, sentado continuou. Ela, então, falou: -"Você escolhe um e eu outro". Ele escolheu a pedra que ela embrulhou com a folha de papel mágico e jogou fora. Aí sobrou a tesoura que usou fazer um recorte em forma de flor e ofereceu ao guardião! Finalmente ele sorriu, liberando a entrada.

O sujeito, então, aproximou-se antes que ela seguisse perguntou:

- Onde estamos?
- Não sei, eu estava dormindo e, de repente, “boom”! E você?
- Achei esta carta e aí “boom” também.
- Ah! A Cartomante de Papel! Ela faz isso às vezes.
- Você a conhece?
- Sim! Eu que a desenhei. Vai tentar o teste também?

Boom!"


 


Boa tarde! Eu sou o Narrador!


sábado, 20 de setembro de 2025

Orquídeas

Hoje, veio aqui o sujeito que cuida do jardim e encontrei uma orquídea, depois que ele limpou tudo. Aí lembrei da primavera e resgatei um texto antigo, dos tempos do "Contos de Fada?" e trouxe para cá com algumas modificações.

Disse a canção que a boa nova está a caminho,
Pois setembro já é uma realidade
Que a Primavera marcará
Com cores e flores...

Os que hibernavam, acordarão...
Preguiçosos talvez, animados quem sabe...
E a procura de lembranças quase esquecidas
Encontrará a realidade!

Antes, porém, o inverno mandou o vento...
Não aquele que traz de novo o coração para o peito...
É aquele que leva a fada para o lugar sombrio
Onde só existem trevas, frio e solidão...

A elfo sentiu o seu chorar, mas nada podia fazer sozinha...
Lançou aos céus, então, a súplica da fada machucada
Pedindo para voltar à vida
Salva enfim da escuridão...

O Mago ouviu o apelo da elfo e foi a seu encontro...
Uniram suas forças e ele invocou o ser dos sonhos e a força de Fênix.
E assim ordenou:
“ - Chame-a... salve-a da noite sem lua e sem estrelas... faça seu sangue correr antes que a escuridão a desfaça!”

A tarde é chuvosa...
Da janela vê-se o rio, mas ele está preguiçoso também...
E, em algum lugar, uma fada se prepara para ir até a Lua,
Virar lá na Rua Regina, se abastecer de poderes encantados e encontrar outras fadas...
Para voltar a Terra, antes do sol nascer...



Boa noite! Eu sou o Narrador!

quarta-feira, 23 de abril de 2025

Salve Jorge!

Dei uma passeada no "Contos de Fada" e não descobri nada significativo sobre o dia de São Jorge que é hoje.

Por outro lado, encontrei uma bela história sobre o Dragão. Efetivamente não sei bem qual problema São Jorge tinha com o o animal, mas o Dragão não gostava muito de falar a respeito.

"Houve um tempo, em outra dimensão,
Que os dragões eram poderosos
E dominavam os homens,
Comandados por feiticeiros do mal...

Um desses dragões recebeu uma missão:
Derrotar um cavaleiro errante,
Que procurava sua princesa
No interior de uma caverna, onde ela era cativa.

Antes de encontrar o cavaleiro,
Ele viu a menina que aproximou-se sem medo...
Deu-lhe um “olá” e acariciou sua testa,
Além de oferecer-lhe um chá.

Uma lágrima ameaçou cair dos olhos do dragão
Que foi embora sem cumprir sua missão.
Afinal, como poderia magoar a doce menina,
Depois de tão gentil acolhida?

O cavaleiro, então, encontrou sua princesa
E, juntos, comandaram uma batalha contra os feiticeiros...
De tão irados que ficaram,
Baniram o dragão para outro mundo...

Ele surgiu num parque de diversões (como aquele que falei outro dia)
E antes que causasse muito espanto,
Viu um armário e por ele entrou,
Vindo parar no País dos Sonhos Verdes...

- Então aqui ele virou jardineiro, Mago? - perguntou a Dri.

A cena era bem interessante:
Os yetis jogavam cartas e as meninas brincavam no lago da cachoeira, enquanto observavam o dragão cuidando das rosas...

- Não é bem assim – respondeu o Mago, afagando sua cabeça – Ele cuida da rosa azul e ainda enfrenta cavaleiros errantes (o menino foi um deles); mas ele é dócil e, um dia desses, pode levá-las para voar.
- A mana tá chamando... me leva no colo?

E o Mago, com muito cuidado, coloca a menina nos braços e a leva até as demais.

“- Xau, Mago!”

Um jato d'água transformou-se em nuvem e desapareceu, a seguir, levando os yetis e as meninas... Qualquer hora elas voltam... afinal, elas nunca aconteceram..."


 


Boa noite! Eu sou o Narrador!

sábado, 17 de dezembro de 2016

♪ “Só enquanto eu respirar Vou me lembrar de você" ♫

Uma história já contada no “Contos de Fada?”, mas que eu acho muito bonitinha e resolvi repetir por aqui com algum grau de edição ( e muitos links para outros cantos). 

Ana acordara cedo, sentiu frio e jogou uma blusa de moletom (enorme), que o Guri deixara, por cima do pijama curto; não penteou o cabelo, não lavou o rosto, mas pegou um café bem forte na cozinha (Tia Nastácia chegara cedo) e foi até a varanda do quintal para ver como estava o dia. 

Um chuvisco incessante, uma neblina de inverno, lembrou da irmã que gosta dessas coisas. Pensou em mudar tudo, mas também lembrou “daquela menina com uma bela expressão de boca, olhos castanhos brilhantes e tudo formando um conjunto de rosto bem adequado e com suavidade bastante para ser agradável de olhar” que aprecia um dia chuvoso e aí deixou por isso mesmo. 

Quando, então, surgiu um gato com uma mensagem da Lua: 

“- Vão receber cantoria, alguns virão só poesia, 
Outros, nem tanto, só alegria, arrumem os girassóis, 
Comecem dando nós, façam a tal da festa!” 

Nisso o Mago se aproxima: 

- O que ele quer dizer, Mago? 
- Que a Lua virou poetiza e atriz... espere que tem mais, Beatriz! 

“- Preparem arroz com feijão (continuou o gato), 
Pois essa gente terá muita fome, 
Assim como diz aquela canção, 
Tudo de grão em grão, pena que logo some!” 

- Feijão eu garanto, mas vou fazer bolinhos também! - comentou Tia Nastácia 

“- Para Ana o mar manda recado
Já que não esqueceu daquele dia
Onde ela estava a seu lado, 
Apesar de que isso ninguém via.”

- .... – ela enrubesceu. 
- Você cantou na praia e, ele, as estrelinhas te deu. 

“- Para os demais, que venha a sorte, 
Talvez apareça um realejo, ai no seu vilarejo, 
Espantando a tristeza, a dor e os ditos da morte, 
Realizando, de uma vez só, todo seu desejo.” 

- ... – dessa vez foi Melinda que os olhos arregalou. 
- Veja, menina, foi a Lua quem falou! 

“- Pra encerrar essa apresentação, 
Pois é hora de pular fora, 
Deixo, do anjo, outra canção, 
E agora vou-me embora!” 

- E pra quem canta agora, gato?
- Ué? Como você não sabe? Aqui só existe um fato! 

♪“Metade de mim 
Agora é assim 
De um lado a poesia, o verbo, a saudade 
Do outro a luta, a força e a coragem pra chegar no fim 
E o fim é belo incerto... depende de como você vê 
O novo, o credo, a fé que você deposita em você e só”♫ 

O gato abriu uma gargalhada, 
Uma luz o iluminou, de tamanho ele aumentou, 
Ainda deu tempo de dar uma olhada, 
Pois num clown se transformou. 

E ele saiu por ai... 

♪“Só enquanto eu respirar 
Vou me lembrar de você 
Só enquanto eu respirar”♫

  



Bom Dia! Eu sou o Narrador.  

N.N.: As referências musicais são do Teatro Mágico

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Pelo singelo direito de sonhar

Faltando um mês para o Natal, mais uma vez recebi uma missão do Papai Noel e hoje foi o dia de cumpri-la. Duas irmãs, duas cartinhas deixadas na agência local dos Correios (a irmã mais velha escreveu as duas) e duas surpresas, cada qual a seu jeito, gerando um dia de alegria e emoção (com a participação mais que especial da mãe das meninas e da agente de saúde que localizou a família). 

Pensei muito no que escrever: a mágica do Natal está na fé, seja no aniversariante ou nas histórias do Papai Noel; as irmãs acreditaram e alcançaram seus sonhos e acho que isso é o mais importante de tudo. Ano bissexto, sonhos perdidos no tempo, um mês de "amizade condenada", surpresas de final de ano, tudo leva a crer que a mágica ainda está presente e resolvi reproduzir parte de uma das últimas postagens que coloquei no "Contos de Fada?" antes de vir para o sul, ainda em Petrópolis, e que é uma referência à uma amizade mágica de muitos anos. “Pelo singelo direito de sonhar” é um dos mais lindos textos que a Fernanda escreveu e representará o momento mágico de hoje. 

"Um dia me disseram que contos de fadas não existiam. Então, eu que sempre fui turrona, não acreditei e disse a todas as minhas amigas que eu mesma era uma fada, e mais do que isto, que todas as noites, ao adormecer, eu ia até a Lua, virava na Rua Regina, lá me abastecia de poderes encantados, encontrava as outras fadas e voltava para Terra, antes do sol nascer.   

No meu país encantado existiam também bruxas (mas todas do bem) gnomos, anjos, magos... Havia espaço para todos os seres encantados, e se você quisesse, diria na hora para você qual destes seres você era (todos nós, ao dormirmos, nos transformávamos em seres mágicos). Se fosse uma fada, deveria comer margaridas, porque este era o alimento sagrado das fadas, só eu que não precisava, porque comia lá na Lua.  

Até que em uma manhã chuvosa eu acordei e percebi que naquela noite não havia visitado a Lua. Senti-me muito triste: por que será que não fui para a Terra das Fadas esta noite?! Contei os minutos durante todo o dia, ansiosa, esperando a noite cair, para descobrir o que havia acontecido. Qual não foi a minha surpresa quando, no dia seguinte, vi que também não havia ido para a Lua naquela noite. Anos mais tarde fui descobrir que na noite anterior, havia perdido a minha licença para ser Fada, e com isto o caminho para a Terra das Fadas havia sido interditado pra mim... Jamais poderia voltar a Lua.   

Minha licença foi caçada no momento em que disse para minha amiguinha que Papai Noel não existia. E naquele dia eu não entendi, mas violei a maior lei do Universo... a do encantamento. Não sei se vocês sabem, mas além da lei da gravidade, daquela que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço, tem também a do encantamento, são poucas as pessoas que conhecem, mas ela existe sim... diz sobre acreditar naquilo que não vemos, e é bem semelhante com o que os adultos, letrados, chamam de fé. Mas ela é mais do que isto, é a matéria que compõem os sonhos, que dá cor a vida e que traça o caminho para a Terra das Fadas. Violar esta lei é crime grave, ainda mais neste caso, em que eu estava retirando o direito de fantasiar daquela pessoinha. A punição para isto é a prisão perpétua no País do Ceticismo... o mesmo lugar aonde havia sido acorrentado aquele um que me disse que contos de fadas não eram reais. Ceticismo que, na tentativa de desvendar os mistérios do mundo, não te permite ver/sentir tais mistérios, porque cega os nossos verdadeiros olhos, os do coração. Não te permite imaginar o inimaginável e assim, tenta varrer a fantasia da sua vida, tudo fica meio cinza e morno... E toda a memória da infância encantada vai sendo esquecida, pois quanto a isto o Universo é cruel, assim que você fecha as portas para o mundo da fantasia ele também vai se fechando para você... 

Sorte que, 20 anos mais tarde,  consegui encontrar uma brechinha na porta da Terra da Fantasia,  porque sempre que você experiencia algo que você só consegue compreender pelas (sem) razões do coração, como o amor genuíno, uma fada sorri lá na Lua e abre uma pequena brecha pra você, que com sorte, pode avistá-la aqui da terra, e agarrar-se a ela... Para que isto aconteça só é preciso andar distraído, garanto...   

Ainda sonho em visitar a Rua Regina, principalmente nestas épocas do ano, em que sito ainda mais saudades dos encantos... mas meus pés continuam acorrentados, impedindo - me de voar mais alto... Talvez seja por isto que hoje carrego uma fada tatuada na minha cintura... Pelo singelo direito de sonhar.   

E se hoje, quase véspera de Natal, você me perguntar se acredito em Papai Noel,  a minha resposta seria, claro que sim!!"

 Boa Noite! Eu sou o Narrador.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Quanto tempo demora um mês

Bem vindo ao “Coisas do Narrador”, spin-off do blog “Contos de Fada?”. Se você chegou aqui certamente gosta de entrelinhas, imagens criptografadas e “easter eggs” (existe tudo isso espalhado por aqui); caso contrário, deguste as sandices que escrevo e as leia com o coração.

“Em algum momento tudo passa, deixa lembranças, doces momentos, brilhos, cores, alegrias, tristezas, erros e acertos.” 

O plano de Adrielle era simples: a distração da lua cheia seria mais do que o suficiente para tirá-la do desvio temporal (onde toda sua comunicação seria cortada); feito isso, bastaria empurrar o sujeito para o jardim, arrumar um dia de sol e colocá-lo de novo na sua rotina alternativa por conta do ano bissexto: ele ficaria bem humorado, sem vontade de “picar a mula” para outros cantos, toda a dor que sentia iria embora, e a ideia inicial se restabeleceria sem imprevistos.  Ao cair no jardim, entretanto, o sujeito viu Adrielle, que prendera o pé numa raiz. 

- Ei, menina, quem é você? 
- Minha irmã fez isso tudo pra você. 
- Onde fica “isso tudo”? Cadê aquela outra que não sabia fazer café e gostava de brócolis? 

Quando ele acordou fazia muito frio, mesmo com o dia claro que se abria lá fora. A dor fora amenizada e uma ampulheta fora virada. 

- Ana, venha comigo. Já é tempo. Ele ficará bem. 
- Ela pediu que eu ficasse... assim farei... e ele não está bem certo de que devo ir também.

As irmãs se abraçaram e Adrielle sumiu numa nuvem cor de rosa. Com ela foram os últimos brigadeiros (estavam deliciosos). Ana olhou a ampulheta e lembrou de um dito antigo: 

“O tempo, enquanto dorme, é um gigante; quando acorda é poderoso e sopra a maldade pra dentro do estábulo, derrubando a arrogância dos que se julgam reis. Senhor da razão: terra de ampulheta que desliza lentamente pelo cristal que brilha à luz do sol. Quebre-se o vidro, espalhe-se o pó com aquele vento que dissolve o cansaço.. e que o tempo passe rápido e depois pare... para que eles sejam finalmente felizes.”  




 
Boa Noite! Eu sou o Narrador.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Conto da Lua Cheia

Li em algum lugar que os condenados esperarão 74 anos para ver novamente uma lua cheia como a de hoje... que bom que eles estarão lá! 

Preso no desvio temporal, ele seguiu em silêncio no retorno inesperado para casa. No caminho havia muita chuva, mas consertara as luzes do carro e sentia-se seguro. Comprara um lanche e algumas cervejas para mais tarde. A cena ele já desmanchara de véspera, mas ainda havia muita lembrança à sua volta. Tomou banho, descansou, comeu o lanche que comprara e seguiu sem falar mais nada. 

A dor que ele sente é velha conhecida, talvez a única que o leve às lágrimas, e o consome na incerteza da perda tão certamente esperada, mas completamente indesejada. 

Ele permaneceu em silêncio, mas a visão da lua cheia acendeu seus olhos castanhos, refletindo no verde da tristeza as lágrimas escondidas e o desejo de um dia voltar a sorrir.

Finalmente, sob os raios do luar, escreveu um bilhete, daqueles que ninguém manda e que vira mensagem esquecida numa gaveta: 

“O poder que me ensinaste  
Poderá não ser suficiente 
Para o tempo passar depressa 
Preciso de você! Venha logo! 
Irei te buscar se preciso for, 
Mas não me deixe só... 
Can you understand?”

Lá naquele sonho, entre imagens e pensamentos, sombras e sentimentos, em seu coração somente um se faz presente e se chama saudade. 

- Beatriz, hora de dormir! 
- Só você me chama assim!

E um serelepe, após um afago e um sorriso, correu pela noite sob os os fios de prata da lua cheia, levando a mensagem a seu destino... 

  
 
Boa Noite! Eu sou o Narrador.

domingo, 13 de novembro de 2016

Carpet of the sun

♪ ”See the carpet of the sun 
The green grass soft and sweet 
Sands upon the shores of time 
Of ocean mountains deep 
Part of the world that you live in 
You are the part that you're giving”♫ 

Trilhar pelos “Contos de Fada?” lembra uma vez que a “Garotinha” perguntou se eu estava com saudades do que escrevia antigamente. Hoje, talvez eu responda, mesmo que tardiamente, que às vezes sinto falta realmente. Por conta disso é que surgem textos com referência ao blog antigo, mas a vida continua e a gente tenta seguir em frente. Esquecer o passado? Não necessariamente... 

“Vindo e observando tudo na floresta, você estará livre para encontrar qualquer sentimento. Nesse dia você vai descobrir que conhece todos os caminhos e as coisas que lhe serão mostradas.” 

- Pensei em reservar o almoço, porque depois fica difícil arrumar lugar. 
- Melhor não.... um lanche depois será perfeito; compramos e comemos em casa mesmo. 

A ideia hoje era uma caminhada, levada a termo, na Floresta Nacional de Três Barras (mesmo local onde já houve um pedal e que contei aqui). O local é incrível e aberto, generosamente, a qualquer pessoa que queira conhecer. Foram pouco mais de 11 km de contato direto com a natureza. O dia estava nublado, mas não choveu, o que facilitou a caminhada. 

“Observe a grama verde, macia e doce: é o tapete que o sol lhe oferece; a parte do mundo que vive em você é a parte do amor que tudo complementará ” 

- Tenho pão de forma, queijo e presunto... nem precisaremos comprar. 
- Farei um brigadeiro, então. 
- Vou precisar saber os ingredientes... 

Há muitos anos havia uma banda que já mostrei aqui e que se chamava Renaissance. Tive o prazer e a honra de ver dois shows da vocalista Annie Haslam (o último em 2005 com Marcus Vianna, onde tirei algumas fotos) e uma das músicas da banda é bem adequada ao dia de hoje. Dessa forma, o texto segue com uma adaptação livre da letra de Carpet of the sun. 

- Leite condensado... 
- O que mais? 

“Sinta o dia, o calor da luz do sol ao seu redor, pois foi a melodia do amor que te encontrou.” 

- Manteiga...
- Tem que ter panelas não é mesmo? 
- Você não tem panelas? 
- Tenho, claro. Serve cacau em pó ou prefere achocolatado? 

“Na Natureza, a semente que plantamos hoje, amanhã será uma árvore... e a vida segue em frente, pois é tudo parte de nós dois.” 

- Ana, cheguei. 
O abraço das irmãs durou um bom tempo, lá naquele lugar que nunca aconteceu. 
- Preciso de você, Adrielle. O que era uma ótima ideia entrou num caminho complicado. 
- Você sabe que seu tempo está no fim e eu também não posso ficar por um período muito longo.
- Eu sei, mas daremos um jeito nessa confusão!



Boa Noite! Eu sou o Narrador.

domingo, 6 de novembro de 2016

Home


Hora de voltar. 

Ela pedalara até bem longe, mas não estava tão cansada assim. Fez uma última saudação ao céu azul e o caminho pelo campo virou uma pintura, alternando tons de verde com um dourado brilhante em alguns trechos do percurso. 

Ana pegou a pequena sacola azul, azulzinha, onde raios de sol do passeio foram colocados e os espalhou por todos os lados, fazendo brilhar ainda mais o presente que levava para eles. 

Ele reclamou: estava abatido, falou que não era isso que tinham combinado e que eles erraram tudo; Melinda estava péssima, mas preferiu ficar quieta num canto. Ele pegou a caixinha de madeira que Ana lhe entregara; dentro dela havia uma almofadinha em forma de coração. Chamou a amiga vampira que finalmente sorriu e falou: 

- Aqui já há sol e um coração... agora basta preencher com outro coração que abrace, que possa dar um beijo de boa noite ou somente possa dizer um “até”. 

Ana sorriu e seguiu sua viagem de volta. Na despedida, deixou um pequeno cartão em cima da mesa com um poema.

- Eles estão mais calmos? 
- Não, mas isso virá com o tempo. 
- Quer chá, Beatriz? 
- Só você me chama assim... 


Boa Noite! Eu sou o Narrador.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

O Feitiço do Ano Bissexto

”Poderia ser (500) DIAS COM ELA, de alguma amizade “condenada”, forçada, equivocada, mas também de algo que cresce aos poucos, um romance, talvez algo mais sério, basicamente um primeiro amor.” (Eu, Você e a Garota que Vai Morrer) 

Explicar a relação do trecho acima com o texto de hoje seria tão ou mais complexo que ele próprio, por isso vou deixar por isso mesmo. Como hoje é Dia das Bruxas, vamos ao que interessa: mais uma história não contada no “Contos de Fada?”. 

Ana deixara tudo muito bem explicadinho: o sujeito não gostava de anos bissextos, mas era um cara legal; aproveitariam exatamente a hora perdida do início do horário de verão para colocá-lo no desvio temporal alternativo. 

- Olá! 
- Olá! Como vai? 

Ele não perceberia o fato de andar por um universo alternativo, onde as coisas correriam de forma um pouco diferente e aí ele não ficaria tão mau humorado e com vontade de “picar a mula” para outros cantos. 

- Vou bem. Bela noite para reflexões, não acha? 

Melinda usaria o que aprendera com as “ymbrines”, criaria a fenda e, junto com o Guri, voltariam à velha casa e a usariam como portal. 

- E você veio de onde? Aliás... que onde é esse que nós estamos? 
- Não tenho muita certeza. Estou com fome. Quer brócolis? 

(Ouve-se um trovão vindo de um raio que escapou da bolsinha que Adrielle deixara para alguma emergência.) 

Ops... 

O que ninguém esperava é que o tal do raio criasse um outro caminho, onde aquela menina com uma bela expressão de boca, olhos castanhos brilhantes e tudo formando um conjunto de rosto bem adequado e com suavidade bastante para ser agradável de olhar, aparecesse na porta da velha casa, que agora estava fechada com o sujeito dentro. 

- Prefiro um chocolate, obrigado. Em outra ocasião aceitarei o brócolis. 

Ela parecia saída de um livro do David Nicholls , ou quem sabe de outro de Jojo Moyes, ou talvez vinda do mundo mágico do Harry Potter (será a melhor definição já que o texto é sobre magia, portais e “ymbrines”). Na conclusão, olhou em volta, viu a porta, sutilmente “meteu o pé” e a derrubou – delicadamente - como se fora um yeti. Entrou, deu um susto no sujeito e logo puxou assunto, digamos, para "quebrar o gelo".

- Chá de pêssego, talvez. 
- Ficarei somente com um café e obrigado mais uma vez. 

Ao descobrir a confusão, Melinda e o Guri utilizaram alguns métodos alternativos do tipo noites infinitas, momentos súbitos de sono e artifícios muito confusos para serem explicados. A ideia era causar uma distração, para que eles esquecessem aquele instante inusitado e seguissem suas vidas normalmente. 

- Não sei fazer café... ):

Muitas tentativas depois alguma coisa funcionou, eles esqueceram da casa, mas não esqueceram do encontro, tamanha a intensidade dessa pérola do destino.

- Aceito um copo de água. Que almoçar comigo amanhã? 

Depois da chuva o frio continuou, mas o sol finalmente brilhou (era a última parte das instruções de Ana), formando um belo arco-íris. 

- E o que aconteceu depois, Beatriz? 
A pequenina riu... 
- Como se você não soubesse...  




Boa Noite! Eu sou o Narrador.
  

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Ciclone

No passado, a proximidade do ciclone era prenúncio de apagão e chegada de Adrielle. Na véspera faria calor, mas o dia seguinte iniciaria nublado e estranhamente silencioso, como se até os pássaros resolvessem reforçar seus ninhos na proteção das crias. 

Ana olhou para o céu, viu as nuvens de um cinza avermelhado bem característico e correu na direção da casa ainda a tempo de fechar algumas janelas, antes que a areia levantada pelo vento inundasse todos os cômodos (“like Murphy Cooper”). 

Do lado de fora, a tarde se fez noite e a tempestade surgiu ao longe num cone de chuva forte. Separou os lampiões e as velas, como de hábito, e arriscou um banho rápido antes que a energia elétrica cessasse. Sentiu falta das irmãs, que preencheriam esse momento vazio de profunda solidão, mas não entristeceu pois sabe que as verá em algum momento.

Já sem luz qualquer que fosse, acendeu o antigo Aladim e o cheiro de querosene espalhou-se pela casa deixando um aroma de lembrança de outros tempos, para aqueles que lá estiveram. Aproveitou o brilho azulado e, com a ajuda de um incenso de mirra, buscou uma ponta de luz que lançada na parede criou uma tela em branco. 

Sentou-se no sofá de almofadas gigantes e coloridas, usou uma manta atoalhada para aplacar o frio e escolheu fuçar o universo alternativo, aquele que poderia ter sido e que ficará para uma próxima vez. Uma torta de amoras recém saída do forno e deixada por Tia Nastácia foi a solução para a preguiça de preparar um jantar. 

Ela teria o dobro de sua idade, humor muito variável (dependendo da época do mês), brigaria com espinhas, usaria aparelho nos dentes; cuidaria dele assim como ele o mesmo faria, como companheiros inseparáveis, e cantariam nos dias de sol; nas férias viajariam pelo mundo e fariam fotos divertidas que compartilhariam com os amigos... seriam felizes, veriam Grey's Anatomy e aprenderiam com suas lições. 

Apagou a magia, o lampião e dormiu no sofá. Vozes ecoaram na sua cabeça, mas quando acordou não lembrou o que sonhara. 

“Por que nós tentamos, quando as barreiras são tão altas e as chances tão baixas? Por que não fazemos as malas, e vamos embora? Seria tão mais fácil. É porque, no fim, não existe glória no fácil. Ninguém se lembra do fácil. Eles se lembram do sangue e dos ossos, e da longa e agonizante luta até o topo. O segredo, porém, ganhando ou perdendo, é nunca falhar; e a única maneira de falhar é não lutar. Então você luta até não poder mais e é assim que você vira uma lenda.”¹ 

 
Boa Noite! Eu sou o Narrador.  

¹ Tradução e edição livres das narrações do episódio 11.14 - “The Distance” - de Grey's Anatomy.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Só palavras

Num mês de agosto qualquer... 

O brilho da lua entrando pela janela do quarto 
Fez com que o dia começasse mais cedo; 
Se bem que ela não levantou;
Também não conseguiu mais dormir. 

Aulas próximas a começar, 
Malas e mochilas quase prontas, 
A petizada mais ou menos animada... 
Enfim... acabaram as férias. 

Talvez tudo isso fizesse diferença 
Se o sonho tivesse tomado a forma que ela queria. 
Só que nenhum dos dois esperava tal desfecho, 
Quando ela quebrou o frasco mágico do encanto.

Muito foi dito, muito foi escrito, 
Muito foi sentido também: 
Músicas, cores, sabores roubados, 
Flores, sol e tempestades. 

Das palavras ditas, somente uma parte, 
Pode-se dizer, que foram certas. 
Aquela mais importante foi trocada 
Por outra que não refletiu os sentimentos verdadeiros. 

E ele preferiu a solidão, 
Enquanto ela preferiu andar por ai. 
De comum, a mesma dor invade os dois, 
Pois ambos perderam tudo. 

Foi bonito, lindo mesmo, 
Aquilo que os uniu. 
Ele foi sincero; ela teve medo 
E recuou no momento de decisão. 

Injusto? Com quem? 
Será que somente um coração ficou partido? 
Qual dor agora é maior? A da perda? 
Quem perdeu mais? 

“[...]E hoje pergunto em mim 
Quem foi que amei, beijei 
Com quem perdi o fim 
Aos sonhos que sonhei... 
Procuro-te e nem vejo 
O meu próprio desejo... 

Que foi real em nós? 
Que houve em nós de sonho? 
De que Nós fomos de que voz 
O duplo eco risonho 
Que unidade tivemos? 
O que foi que perdemos?” 

E agora, mais uma vez, só restou o silêncio...

   


Boa Noite! Eu sou o Narrador.  

N.N.: O trecho destacado é do poema “Amei-te e por te amar” de Fernando Pessoa. Clique aqui para ler toda a obra. Texto com tributo a Cássia Eller (original publicado no "Contos de Fada?" em 30/01/2011)

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Love songs are back again

- Oi! Tudo bom? 

Uma série de músicas foi escolhida, 
De forma totalmente aleatória, 
Para preencher algumas noites muito frias, 
Onde havia muita saudade e solidão. 

- Desculpe os trovões, mas foi uma forma de disfarçar minha chegada. 

Lembranças de um tempo muito antigo,
Onde havia um programa de rádio
Com aquelas suaves melodias preenchendo vários espaços,
E que acompanhavam os momentos de dúvida, de paixão e também de desilusão. 

- Vim trazer o bilhete, conforme disse que faria. 

Às vezes ela as escuta de novo. 
Entram por seus ouvidos como se fossem perfumes doces, 
Que trazem de volta aquilo que nunca foi esquecido 
E que ainda causam inúmeras emoções. 

- Preferi não confiar num portador... assim foi mais seguro.

Tristes canções de amor, histórias não resolvidas, 
Corações despedaçados, lágrimas que correram, 
Eventualmente algumas alegrias, 
Mas essas foram as mais raras. 

- Enfim... aqui está! Faça o que desejar com ele.

Hora de dormir... mais um dia se vai,assim como a visitante misteriosa.
Momento de sonhar mais um pouco, 
Lembrando-se das coisas boas, 
Aquelas que ainda não aconteceram. 

- Ah! - ela retornou - Um último detalhe! Escreva pra ele... ele vai gostar!

Outro trovão... apagão... cai a chuva fina... novamente sozinha... no bilhete somente um trecho de letra de música...

“That's it
There's no way
It's over, good luck

I've nothing left to say
It's only words
And what l feel
Won’t change”


E naquele lugar que nunca aconteceu...

- Onde você foi, Beatriz? 
- Como se você não soubesse...






Boa Noite! Eu sou o Narrador.

terça-feira, 10 de maio de 2016

What It Feels Like For A Girl

”E de repente a vida te vira do avesso e você descobre que o avesso é o seu lado certo” (Caio Fernando Abreu). 

Se eu for contar como surgiu a ideia para este texto vou ter que escrever outro, mas a coisa começou com essa frase aludida ao jornalista, dramaturgo e escritor brasileiro e deve terminar com outro assunto lá no mais adiante. 

- Ana, você parece doente! 
- Nada, Adrielle. Só cansada.
- Por que não pediu ajuda para enfrentar a bruxa? 
- Você estava ocupada deixando a flor no inverno. 

Um dia eu contei aqui a história da Luisa, naquele dia, há dois anos, em que ela torcera o pé, tinha a tal da festa junina e, enfim, clique aqui para lembrar desse assunto. 

- Nossa! Preciso me arrumar mesmo. Estou horrível! 
- Nem, Ana! Você está a mesma de sempre! 
- Ah, Guri! Você não entende nada né? 
- Como assim não entendo? 

Apesar de retratá-la como “a patinha feia”, talvez (há controvérsias) “ovelha negra” fosse mais conveniente (do seu próprio ponto de vista). Eu sei que isso deve soar estranho pois Luisa parecia ser uma menina feliz, mas nem sempre foi assim. De personalidade forte ela era diferente de sua irmã mais velha, mas sua família queria que ela fosse igual - a filha perfeita, a filha que todos os pais querem ter, uma aluna dedicada, quieta, que ajuda nos trabalhos domésticos sem reclamar, seu maior sonho era ser médica... algo do gênero! 

Mas estávamos falando de Luisa não é mesmo? A vida dela era assim: sempre sendo comparada com a irmã e sendo menosprezada, apesar de saber que sua família a amava (só que não a entendia).

- Você tem ideia de como se sente uma menina? 
Acha que é fácil arrumar cabelo, roupa e tudo o mais? 
Para os meninos é moleza, qualquer coisa tá bom; 
Pensa que lá sua amiga é bonita daquele jeito à toa? 

Certo dia, muito antes daquela festa junina, Luisa ficou mal e teve de ir até o hospital, onde conheceu um médico que marcou a vida dela para sempre, pois foi um dos únicos que a entendeu. Ela não era de falar muito, gostava de desenhar, ler, assistir séries e filmes, mas eles conversaram e, com apenas um desenho, ele viu potencial na menina alta, magricela e com o sorriso metalizado. 

- Podemos parecer frágeis, mas não mostramos nossa força, 
Melhor agir do que ficar falando mais da conta. 

Um dia ela se apaixonou por um garoto que só a humilhou pois ela não era uma menina bonita (ele era um otário), mas como disse Megan Fox uma vez : “Nunca magoe uma garota... você não sabe o quanto ela pode mudar depois disso.” 

- Você me convenceu, Ana. 
- Agora você ficou vermelho, Guri! – ela riu. 

Realmente ela mudou, amadureceu e, sem ligar para as críticas, virou uma mulher linda e uma artista famosa por seus quadros. Na formatura ela só queria agradecer àquele médico por ter acreditado nela! No fim das contas, a sua "fada madrinha" na verdade fora ele que não a deixou bonita (nem precisava), mas a fez enxergar que não se deve dar ouvidos à opinião dos outros e sim acreditar em si mesma. Ele não usou uma vara de condão, mas usou seu coração e um livro de desenhos. 

“Querido doutor nunca irei esquecer o que fez, obrigada por acreditar em mim! Atenciosamente, a Patinha Feia”.

 

Boa Noite! Eu sou o Narrador.
 
N.N.: O texto original é da Luisa Gabrieli Krindges, a quem agradeço muito, e que gentilmente permitiu a edição, onde usei um texto, do mesmo nome, lá do "Contos de Fada?"

segunda-feira, 2 de maio de 2016

O trem e as flores

Antes do frio chegar, a minha ideia era escrever alguma coisa a respeito de umas flores silvestres que eu vi, num domingo de manhã, durante uma caminhada; não sei se já falei isso, mas gosto de caminhar nas manhãs de domingo e ver o acordar desse dia tão preguiçoso. Só que, aí, veio a chuva, o frio, e o efeito desse tema caiu por terra. Nisso fiquei pensando... vou falar do quê? Já que fotografei essas flores, não vou mostrar num texto? 

Moro numa região marcada por guerra que foi chamada de Guerra do Contestado (qualquer hora eu falo disso) e uma das diversas causas foi a construção da Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande que passava por aqui. Hoje em dia não há mais transporte de passageiros, salvo como atração turística, mas já tive a chance de viajar num trecho dessa forma. 

Coisas antigas são legais e as coisas mais singelas geralmente são as mais bonitas... como o apito do trem e as flores silvestres; e como disse hoje meu amigo Cleber, por conta do bloqueio do aplicativo Whatsapp, quem sabe veremos “reais provas de amor, pois voltarão à cena as ligações e sms nas madrugadas e, quem sabe, até cartinhas acompanhando buquê de flores”. Seriam flores azuis iluminadas pelo sol dourado das manhãs de outono? Sendo assim, minha foto prestaria para contar uma bela história, mas não vou perder a chance de escrever juntando tudo isso que já falei (e com uma "ajudinha" do que já foi cantando em verso pelo Milton Nascimento). 

Era uma vez... um trem! 

Seu apito se escuta ao longe... 
Este não tem fumaça como maria 
E não sei se o maquinista tem boné, 
Mas sempre há um ponto final... 

Traz lembranças para uns, 
Esperanças para outros 
E espalha vida em seus trilhos 
Com as sementes que carrega... 

Já disseram que existem outros maquinistas, 
Cortejados pelas moças (que sempre são flores), 
Que passam, deixam lembranças e vão embora, 
Deixando corações viúvos daquela antiga emoção. 

Trabalha-se para esquecer... 
Tudo ilusão... 
Troque o trem e siga outros trilhos 
Que a felicidade esperará em algum lugar...



   

Boa Noite! Eu sou o Narrador.