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domingo, 26 de julho de 2026

Lá pelas Três Fronteiras

Em 2013 eu estive em Foz do Iguaçu, participando de uma excursão. Fiz o básico muito melhorado, aproveitando um dia que o ônibus levou a turma para compras no Paraguai, onde fiz um City Tour e um passeio de catamarã.

Minha filha demonstrou um interesse, particularmente para ver um quati ao vivo, e resolvi sair dos passeios de férias, baseados em coisas exclusivas para as crianças, e programei a viagem.

Avião foi a solução e nisso a ANAC ajudou: a criança vai ao lado do adulto e nem pensar em pagar uma fortuna por assentos. Ah! 60+ também tem suas vantagens.

Hotel em Foz, lógico que em frente a um shopping (se você pensou que fui jantar no Rafain ou em restaurantes de pratos típicos você errou); entrada nas Cataratas de manhã usando o preferencial 60+; AquaFoz depois do almoço; término no Parque das Aves. Isso tudo até umas três da tarde, retornou ao hotel e shopping à noite. 

Dia seguinte, almoço no shopping e tarde no Marco das Três Fronteiras e roda gigante na sequência.

Volta ao hotel, mais shopping à noite, dia seguinte São Paulo (isso eu conto outro dia).

Aí perguntei qual passeio foi melhor. A resposta foi óbvia: "O shopping" 

Pois é...


Boa Noite. Eu sou o Narrador! 

terça-feira, 21 de abril de 2026

Geriátricus - o show

"Velho, mas não obsoleto" (em inglês, "Old, but not obsolete") é uma citação icônica proferida pelo personagem de Arnold Schwarzenegger no filme O Exterminador do Futuro: Gênesis (Terminator Genisys, 2015).

Conheci Taubaté no segundo ano da faculdade, convidado por uma colega de turma para passar o feriado da Independência na fazenda da família.

Alguns muitos anos depois, Taubaté passou a ser parada obrigatória quando vou ao Rio visitar meu pai. Fico num hotel que, outrora, pertenceu à família Mazzaropi.

Enfim.. essa introdução foi somente para enrolar. Tá certo que vou falar de uma banda muito legal, de músicos melhores ainda, originada em Taubaté e que se chama Geriatricus.

Conheci pela Internet quando eles se apresentaram em Curitiba e só soube depois. Passei a acompanhar, o nome tem tudo a ver comigo e fiquei cercando até que descobri um show em Joinville num dia ótimo pra mim (véspera do feriado de Tiradentes).

Comprei um ingresso de primeiro lote, mesa na primeira fila, cheguei super cedo, estacionei na porta (viva o cartão do idoso!) e fiquei aguardando o início do show ouvindo "aquelas canções que embalavam nossos corações".

Abertura feita pela Márcia, da Joven Pan Joinville (a quem agradeço uma forcinha que ela deu para...), e o show começa com "Do seu lado" do Nando Reis.

Três jovens de idade não declarada (mas o CPF é antigo), músicos de alta qualidade, que enfrentaram preconceito por conta de seu projeto inovador e que seguiram em frente acreditando em seus sonhos. Sem comparar, lembrei dos saudosos Mamonas...

Vários momentos apoteóticos cruzaram a noite! Muitas risadas também, além (lógico) de música de qualidade. Rock misturado a reggae, pagode e rolou até a Boate Azul (era homem ou era mulher?).

Voltando para a história lá com a Márcia da Joven Pan...

Um pensamento antes (na verdade é só para enrolar mais ainda o texto).

Velho tem uma grande vantagem: não tem vergonha de nada e pode pedir tudo!

Enquanto eu aguardava o início do show, descobri um contato da banda e mandei uma mensagem pedindo para tirar foto com eles. Duas horas depois veio a resposta e aí dizia que era só procurar alguém da produção. E foi aí que, gentilmente, a Márcia ajudou.

Volta pro show. Cada música melhor do que a outra. A velharada, da plateia, animada! Sem spoiler... vão lá nas redes sociais para poder ver o dia do próximo show.

Hora da foto! Consegui! Foram muito simpáticos. 

Agora é esperar para ver de novo, principalmente se a apresentação for mais cedo, porque quero levar minha filha mas dessa vez não foi possível porque começou bem tarde e ela ficaria com muito sono.

Valeu!

 

 Boa noite! Eu sou o Narrador!

domingo, 5 de abril de 2026

Dançando com a Lua

Conforme prometi, aqui vai o segundo texto que escrevi para a antologia "Floresta Encantada".

"No meio da floresta encantada existe uma casa amarela, onde mora um Mago que, outrora, fora muito poderoso; não que perdera seus poderes, mas já não era tão ágil como antigamente. Para se proteger, criou um portal de acesso à sua moradia que denominou “Fronteira Transparente”, onde havia um guardião que controlava a passagem das pessoas. 

Todos que o guardião liberava eram bem recebidos. Alguns ficavam por algum tempo e assim foi com três irmãs que o Mago encontrou brincando no jardim. A mais velha, Deborah (a abelha), cuidava das menores, Ana (a Bia) e Adrielle (a Dri), enquanto elas faziam formas na areia, cobrindo com pétalas de rosa. As mãozinhas ágeis das menores (Bia devia ter uns 8 anos e Dri uns 4) criavam triângulos entre triângulos e formavam estrelas de um raro brilho, que Deborah  elevou a flocos de neve (ela tinha um grande e misterioso poder). Eram fractais.

O Mago sentou numa pedra para observar melhor as formas, semelhantes e de complexidade infinita, sendo criadas, iluminando os sonhos que não seriam vistos ou as flores, esquecidas, dos caminhos percorridos.  Perguntou quem eram."- Somos o que nunca aconteceu, o que foi amado e que nunca pediu o amor. O que amou, infinitamente, no universo da imaginação." 

Passaram o dia e ficaram para o jantar. Logo após o anoitecer, Ana e Adrielle foram ao jardim. Seus olhinhos brilhavam ao procurar a Lua em algum lugar naquele infinito, onde outras estrelinhas haviam de brilhar também. Iniciaram, então, um rodopiar misterioso, com passinhos delicados. Pareciam estar de mãos dadas a seres invisíveis. Suas roupas iniciaram uma transformação e surgiram vestidos esvoaçantes de tecido suave, um azul e outro rosa, enquanto uma névoa absorvia os poucos feixes de luz em cores diversas e brilhantes. 

Cada vez mais depressa, num ritmo musical, pareciam multiplicadas de tão rápido que dançavam. Em dado momento, pareceu que a Lua assim entendeu, e, coberta inicialmente por um manto negro, materializou-se.

- Por que me chamaram, pequenas elementais?

- Queríamos companhia para dançar!

Convite aceito, a Lua tirou seu manto, mostrou todo seu esplendor e dançou!

Dessa forma é que se dança sob a luz da lua: misture as cores, os contrastes e os brilhos; envolva tudo em sentimentos. O que importa é ser grandioso, maior do que se possa alcançar; deve ser livre e real; deve ter o poder de mudar tudo o que se sente; pode até ser sombrio, mas tem que ser verdadeiro. E, quem sabe, isso deve ser amor." 


Boa Noite! Eu sou o Narrador

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

O Guardião da Fronteira

Em 2024, participei da Bienal do Livro, em São Paulo, como autor. Tive dois contos selecionados para a antologia "Floresta Encantada" e fui lá ter meus quinze minutos de gloria. A experiencia foi muito interessante, pois a antologia foi distribuída para todo o Brasil - por conta de seus diversos autores - e até alguns outros países do mundo. 

Resumindo: meus escritos vararam os mais diversos lugarejos, levando minhas ideias insanas dos tempos do "Contos de Fada?".

Como não tinha comentado a respeito, por motivos diversos, hoje lembrei e vou colocar um dos textos aqui. O outro eu coloco num outro dia...  

"Um belo dia um sujeito acordou cedo pensando em passear, mas havia uma chuva forte que prejudicou seus planos. Resolveu, então, remexer em caixas empoeiradas, cheias de lembranças e fotos, quando uma carta, dessas de baralho, caiu no chão. Abaixou para pegar e viu que havia um desenho, em preto e branco, de uma cartomante e era assinado por “risca risca”. Enquanto pensava sobre o que era aquilo, procurando detalhes, vasculhando a mente atrás da origem daquela carta, um redemoinho o sugou para dentro do desenho. Quando, digamos, caiu, foi amparado por enormes almofadas que amenizaram o tombo. Estava numa tenda, dessas de parque de diversões, onde era possível observar uma mesa com uma bola de cristal, alguns incensos acesos, e uma decoração mista de colorido e cinza. Certo que ensandecia, resolveu sair dali e foi dar num gramado. Ao olhar para trás, a tenda desaparecera e, em seu lugar, havia um jardim e observou uma discussão de uma menina com um sujeito esquisito, baixinho, de barba verde e cabelo roxo, um desses seres que não tem definição, talvez um duende, que estava sentado num banquinho cor de abóbora, para não perder a esdrúxula combinação de cores. Aparentemente era ele que protegia o lugar. 

- Para passar, precisa resolver o teste. O Mago exige!- explicou para a menina, entregando uma prancheta com algumas folhas de papel em branco e um lápis multicolorido.

Sem muito entender, primeiro ela desenhou um passarinho que tomou vida e saiu voando. Concluiu que havia uma mágica e tentou novamente com uma borboleta, conseguindo o mesmo efeito. O baixinho permanecia sério, enquanto várias imagens tomavam vida, enchendo o jardim de bichinhos que logo desapareciam. Como ele não falava nada e nem dava qualquer pista, ela pegou o lápis, desenhou uma pedra e uma tesoura, entregando a seguir para o baixinho, que sentado estava, sentado continuou. Ela, então, falou: -"Você escolhe um e eu outro". Ele escolheu a pedra que ela embrulhou com a folha de papel mágico e jogou fora. Aí sobrou a tesoura que usou fazer um recorte em forma de flor e ofereceu ao guardião! Finalmente ele sorriu, liberando a entrada.

O sujeito, então, aproximou-se antes que ela seguisse perguntou:

- Onde estamos?
- Não sei, eu estava dormindo e, de repente, “boom”! E você?
- Achei esta carta e aí “boom” também.
- Ah! A Cartomante de Papel! Ela faz isso às vezes.
- Você a conhece?
- Sim! Eu que a desenhei. Vai tentar o teste também?

Boom!"


 


Boa tarde! Eu sou o Narrador!


terça-feira, 15 de abril de 2025

Quando a quinta série volta pra você

O sujeito tem uma filha que hoje completa nove anos. Aproveitou a proximidade do evento e foram, os dois, comemorar no Beto Carrero!

Lugar sensacional, um calor danado que é amainado por algumas atrações onde sair molhado é regra (muito molhado).

Na hora do almoço, ele escolheu a atração Excalibur que é um teatro com uma história do Rei Arthur, espada na pedra, cavaleiro negro e uma competição acirrada entre quatro cavaleiros e suas torcidas, separadas pelas cores das mesas.

E aí vem a bateção ao som de "We Will Rock You" do Queen, muito aplausos e vaias da torcida e começa a descer a quinta série nos adultos enquanto boa parte das crianças não tinham a menor ideia do que estivesse acontecendo. 

Tanto que, quando servido o lanche com hamburguer e batata frita, os adultos comeram e as crianças esqueceram (os adultos comeram duas vezes -- que bom--- estava uma delícia).

Chega a período da tarde, pelos cantos vários componentes das diversas excursões já mostravam sinais de exaustão e faltava chão para todo mundo sentar.

Encarou o Portal da  Escuridão, onde sua filha saiu correndo e acabou que ele não viu nada e ela curtiu assim mesmo; seguiram atrações radicais como carrossel, mini montanha russa e a temível xícara que roda e roda até ele quase vomitar.

Exaustos, voltaram para o hotel e caíram no sono após um lanche pelo caminho.

No dia seguinte foram ao shopping. Viva as Lojas Pernambucanas e compraram sandália e sutiã (filha já está crescendo... mas esse acessório ainda não tem uso... enfim...🤦).

Cinema na sequência. Imagina: juntaram Jack Black, Aquaman, Enid lobisomem do filme da Wandinha e até a mãe do Stifler num filme de video game com peças de Lego que não são lego e que chamaram de live action do Minecraft! Aí a quinta série vibrou.

Diversão garantida e tudo terminado, retorno pra casa.

Parabéns, filha!

Bom dia! Eu sou o Narrador.


sábado, 7 de janeiro de 2017

A Lista

Quando estive com a Patrícia, em dezembro, ela comentou que havia um movimento de “urgência” no consultório por conta de um tal de “check list”. Eu não entendi direito, mas ela comentou que as pessoas fazem listas de coisas a fazer durante o ano (ou até que ele termine) e a consulta com o oftalmologista costuma fazer parte disso. Como ir ao médico é procrastinado ao máximo, para cumprir a meta as pessoas correm é no final do ano mesmo. Achei isso tudo meio doido, mas realmente tem coisas que a gente lista mesmo (mas sem neura, claro, mesmo sendo um ser bem metódico por conta da necessidade de sobrevivência). 

Vim a Curitiba para passar o final de semana: primeiro pegar uma encomenda na “Los Quadros” que deve virar texto mais pra frente; depois aproveitar shopping e cinema. Viu? Era uma pequena lista! O interessante é que não venho na cidade há um tempão e foi a primeira vez que consegui chegar a todos os lugares sem errar o caminho (desde a BR até os shoppings Estação e Mueller) – achei um bom sinal (afinal das contas acabou a porra do o ano bissexto!).

 Aí, já que distração fazia parte da “lista”, hoje pela manhã, olhando a rede social, dou de cara com uma dessas “listas” que dois queridos alunos (Juliana e Luizinho) estavam marcando e resolvi entrar na brincadeira. Achei interessantíssimo porque isso mobilizou alguns dos meus amigos a comentar, fazer suas próprias, desejar coisas boas... enfim... foi divertido. A grande dúvida que sempre fica é o que fazer depois que a lista acaba. Tem coisa nela que eu não vou fazer nem “fudendo” pagando como tatuagem, piercing, pular de bungee jump e acho que já não tenho mais idade para intercâmbio. 

Enfim... na minha lista para hoje não tinha esse texto. Listas a gente faz todo dia, mas tem coisas inesperadas que podem ser também inesquecíveis (costumam ser as melhores). 




  
Boa Tarde! Eu sou o Narrador.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Cariocas

Há oito anos, nessa mesma época, minha preocupação era a mudança para o sul. Praticamente tudo embalado, caminhão seria montado na sequência e, após o Natal, eu partiria para uma das maiores aventuras da minha vida. O ano também era bissexto e encerrei com essa pérola de vida e de destino. Nos anos seguintes eu mantive algumas “tradições”, no encontro com os amigos, meu pai, meu irmão e meus sobrinhos e virei meio que “turista” no Rio de Janeiro. No ano passado a problemática da cidade eram as intermináveis obras e as crises nos serviços públicos; as obras acabaram, se bem que as crises pioraram muito e o estado faliu por conta da administração tosca e da corrupção que levou ex-governadores à prisão. 

Na condição de visitante, fui conhecer o resultado das obras da zona portuária do Rio. Fiquei no mesmo hotel/shopping do ano passado e, de lá, peguei o Metrô direto até a estação Carioca, onde existe a integração com o VLT. De forma bem prática, logo já estava com o cartão e com as passagens pagas com o cartão do banco. Nesse momento cabe uma ressalva: se você é turista, você deixa pra trás uns trocados, pois o cartão (que o turista não vai usar nunca mais) tem custo e a carga não é equivalente ao preço da passagem (é “arredondado para cima). Meu cartão ainda consegue viajar uma vez, mas vai sobrar um troco que nem que eu carregue mais vou conseguir “zerar” a conta (ninguém é “bobinho” muito menos carioca que aplica a Lei de Gérson). 

Já no bonde (VLT é um bonde, só que é chique), fui até o recém inaugurado aquário do Rio, para conhecer. Bom... é Rio de Janeiro, né... faltou luz pela manhã, ar condicionado pifou, um puta calor e, ao invés de suspenderem as atividades, deixaram a “bagaça” aberta, mas dando a opção de troca do ingresso para outro dia (e turista lá tem outro dia?). Como estava sozinho (sozinho = sem criança), encarei o calor que nem foi tão horrível assim. O lugar é bonito, mas o circuito é muito pequeno, principalmente se você conhece outros aquários pelo mundo afora. Interessante de conhecer, não levaria ninguém lá (mas as crianças gostam da coisa e aí...). 

Na volta fui a pé até o Museu do Amanhã, apreciando os armazéns e as imensas e lindíssimas pinturas. Um “ventinho” e uma sombra amenizaram a temperatura de 33ºC. O lugar é lindo, mas como não tinha ingresso antecipado, deixei para visitar a parte interna em outra ocasião. De lá, novamente o VLT, fui jogar WAR (e eu ganhei – foco, força e fé) com dois amigos de infância (carioca tem amigo de infância que joga WAR). 

Caminho de volta, novamente o Metrô. Jantar e descansar. Dia seguinte o percurso levou-me até Petrópolis: a ideia era consulta oftalmológica com “minha amiga da adultice” (Patrícia) e um jantar que tivemos que transferir para outro dia (vai virar almoço). De qualquer forma, os momentos da consulta já levaram às alegrias do reencontro. 

Final de viagem de ida:casa do Velho Pai. Para mostrar melhor a história, fiz um vídeo com algumas fotos e coloquei uma música que caracteriza muito bem o povo carioca, que mesmo fudido sacrificado pelo “poder público” consegue manter a sua irreverência e espontaneidade, coisas tão difíceis de ver fora do Rio de Janeiro.

   


Boa Noite! Eu sou o Narrador.

sábado, 28 de maio de 2016

Livros, Tecidos e Cultura Milenar

Outro dia, respondendo  a um questionário para um “TCC” de uma aluna de administração de empresas, eu falei sobre a falta de cultura (não confundir com conhecimento técnico) que aparentam ter uma parcela dos jovens atuais. Tive um professor que exemplificava cultura como algo que você aprende e não mais esquece (tipo: “quem descobriu o Brasil?”). A base do conhecimento atual vem de culturas antigas, onde tudo era passado da forma verbal, já que não havia outro modo de transmitir o conhecimento. Observo, hoje, a busca pelo imediatismo e pela praticidade (qual o objetivo de aprender a tabuada se existe a calculadora?) havendo grande dependência da tecnologia. 

Visitando as ruínas inca (nem tão arruinadas assim), me veio a ideia de que somos o futuro daquela civilização (já pensou como seremos estudados no nosso futuro?), mas não necessariamente um futuro tão desenvolvido assim, considerando que deixamos ciclovias sem fixação enquanto os inca faziam prédios resistentes a terremotos. Nas teorias dos livros do tipo “Eram os deuses astronautas”, onde seríamos o resultado de visitas extraterrenas, eu imagino a frustração desses antepassados ao verificar que sobrou pouca coisa do ensinamento deixado para trás. 

Antes da viagem eu terminei de ler o livro “A Escolhida” (Lois Lowry; tradução de Fabiano Morais – São Paulo, Arqueiro, 2014), segundo livro da série “O Doador de Memórias” (quando li o primeiro eu nem imaginava que fosse uma série). A história gira em torno de uma menina “órfã e portadora de uma deficiência, Kira precisa enfrentar um futuro assustadoramente incerto. Vivendo em uma civilização que descarta os mais fracos, ela sofre hostilidade dos vizinhos, que a acusam de ser inútil para a comunidade. Quando é chamada a julgamento pelo Conselho dos Guardiões, Kira se prepara para lutar pela vida. Mas, para sua surpresa, os autoritários chefes já têm outros planos e a encarregam de uma tarefa grandiosa: restaurar os bordados de uma túnica centenária que contam a história do mundo”(sinopse da Livraria Saraiva). 

Juntando tudo, tive a chance de conhecer o trabalho desenvolvido pela “Associação das Tecelãs de Chinchero”, povoado pertencente à província de Urubamba, no Peru, onde a cultura da tecelagem sobrevive ao passar dos anos. Todo o processo, desde a lavagem da lã até o tecido pronto e passando pelo tingimento dos fios, nos é apresentado com o detalhe de que nada está escrito em livros e é tudo passado oralmente de geração a geração. No livro existe a mesma situação, pois Kira tem que tingir as linhas para fazer os bordados tão importantes para ela e sua comunidade e Lois Lowry soube descrever o processo, inclusive no tipo de fixador usado. Quando tivemos a apresentação a respeito eu associei ao livro de imediato o que tornou tudo muito mais interessante. A série continua e o livro 3 (“O Mensageiro”) foi lançado recentemente. Tive a sorte de dar de cara com ele numa livraria e já está na fila de leitura. 

Afinal, o que é cultura? Vários conceitos existem: depois de ler a respeito, acredito que é algo que deve ser conhecido, respeitado e modificado com o passar dos anos, quando descobrimos o que não é correto ou adequado, sem apagar os registros antigos. Acho que assim aprenderemos, com nossos próprios erros, e saberemos transmitir esse conhecimento às gerações futuras.  


Boa Noite! Eu sou o Narrador.

Somewhere Only We Know

”Naquele tempo, algumas vezes, nós fechávamos os olhos e viajávamos como a brisa, até o sonho acabar...” 

O embarque pela manhã fez com que ele quase nem dormisse e chegasse, no aeroporto, com três horas de antecedência. Apesar da prudência, os guichês de check in estavam vazios e os colaboradores da empresa aérea só chegaram próximo ao horário previsto para o voo. 

- Mandam chegar cedo e ninguém trabalhando... se eu soubesse continuava dormindo. 

Nem... tudo da boca pra fora. Férias planejadas há tempos e a ansiedade era a regra. De qualquer forma, todo mau humor eventual desaparecera quando surgira aquela figura sorridente (“parece divertida”) de altura mediana, cabelos de cor castanho e na altura dos ombros, olhos esverdeados, pele branca e bochechas coradas, vestida com um conjunto moletom e só... não precisava mais nada: lembrou do imprinting que acontece com os lobisomens (vide a saga Crepúsculo), mas a bala de prata era o fato de que ela não estava sozinha. 

“Decidir é jamais desistir... Os sonhos se transformam em realidade, aquecem e nos trazem a vida que pensamos perdida por ai.” 

Foi-se o voo. No desembarque pegaram o mesmo ônibus e ficaram perto. Uma esperança surgiu quando ele a ajudou, assim como seu acompanhante – seu irmão gêmeo (“bem que eu achei eles muito parecidos, mas tem aquilo de alma gêmea... quase isso”), no preenchimento da “Tarjeta Andina de Migración”: franceses, não estavam entendendo nada do que estava escrito. A separação definitiva foi no guichê da imigração e não mais a viu... coisas de viagem. 

“Você me fez ressurgir. Vindo de um nada esquecido no tempo, no meio do sonho deixado na montanha que parecia somente uma bruma eterna. Você fez meu coração bater diferente, mesmo na minha insana ilusão de que teria você em meus braços... Fez meus olhos brilharem ao sol, mesmo no momento da dor da perda, quando vi que não tinha mais chance.” 

Os dias passaram, lugares foram conhecidos, mas a imagem daquele belo rosto o acompanhava de vez em quando. Na multidão chegou a encontrar outros que partilhara alguns passeios, mas nada foi comparado ao que sentira. A última parada foi em Águas Calientes, a pequena cidade que abre as portas para Machu Picchu. O fim do dia foi no meio da bela tarde de sol com céu totalmente azul, onde estranhamente uma brisa marinha sentiu-se na serra, a mais de dois mil metros de altitude, depois de caminhar por muitas léguas e chegar até lá. Na estação, pessoas reunidas para o trem de volta a Cusco, onde as primeiras notas da canção soaram como sinos: seria algum sinal? 

Coraline aguardava seu irmão (gêmeo) que fora ao banheiro. Ele a viu e não acreditou na coincidência. Aproximou-se e recebeu um sorriso, um abraço e um beijo infantil. Conversaram um pouco e tomaram vinho. A música aumentou e tudo virou festa de despedida quando foram novamente separados e isso foi tudo o que restou do seu olhar de diamante... só lembranças que irão embora como nuvens ao vento. 

- E foi isso mesmo que aconteceu? Ele ficou sozinho e ela se foi? Nem trocaram um e-mail ou coisa assim? Acabou e "listo"?

- Quem sabe? Eu entrei no meu trem, segui meu caminho e não vi mais nada. Isso tudo foi uma paixão de férias bem interessante. Só que tem um detalhe: as paixões jamais terminam, mas podem se apagar quando não se transformam em amor eterno. 

♪“I'm getting old and I need something to rely on”♫

 



Boa Noite! Eu sou o Narrador.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

O Condor, o Puma e a Serpente

Toda viagem é um desafio: tempo, grana, planejamento e determinação fazem parte do rol de necessidades para que tudo dê certo. Só que temos que lidar com imprevistos que podem atrapalhar toda expectativa, mas também podem trazer várias surpresas boas. 

No texto anterior eu falei pouco de Cusco porque tudo está disponível na Internet. Além do acervo turístico e cultural a grande contribuição extra é melhorar o preparo físico para o passeio em Machu Picchu, sem contar que você fica sabendo tudo a respeito da civilização Quéchua ou andina, também chamada de Inca (se bem que a coisa não é tão simples assim). A Cusco moderna foi construída em cima da base inca; sofreu alguns terremotos e enquanto as construções espanholas desabavam, as construções inca continuaram de pé, graças à sua tecnologia própria (alienígena?). Existe um quebra- -cabeças, réplica da “pedra dos doze ângulos” que eu comprei na loja da associação de artesãos e que fica ao lado da Igreja da Companhia de Jesus na Praça das Armas, que mostra a “assimetria simétrica” dos blocos de pedra; lá também comprei o totem com a Trilogia Inca que dá o título ao texto de hoje. Tudo é muito interessante e farei leituras complementares a respeito. 

A grande dificuldade em planejar sozinho a ida a Machu Picchu são os limitantes: somente 2500 pessoas entram, por dia, no parque arqueológico e os ingressos terminam meses antes; dessas, somente 400 subirão as montanhas em dois horários específicos (isso independe da entrada). Traduzindo, se você marcou o ingresso para determinado dia todo o restante orbitará nesse dia (trem e hospedagem). Por conta disso, eu preferi a agência mesmo, dei as minhas datas disponíveis e pedi dois dias para entrar no parque, já que o primeiro seria com o guia e o segundo eu queria fazer sozinho, para rever alguma coisa que eu gostasse ou conhecer algo diferente (passeios com guias costumam ser limitados). 

Quando a operadora enviou a programação, incluiu a subida da montanha Wayna Picchu (tem um monte de jeitos para escrever isso, mas significa “montanha menor”) com um custo um pouco maior e eu pedi para retirar da programação. Vamos entender: já passei da minha fase de subir montanha que ficou lá na adolescência quando eu subi a Pedra da Gávea no Rio de Janeiro (aliás tem alguns “primos” dessa pedra em Machu Picchu também); dei uma lida a respeito e não fiquei nem um pouco interessado no esforço físico extra; pensei na hora da descida, quando a gente acaba olhando para baixo e lembra que “o santo ajuda”. 

No dia do embarque para o parque, meu “personal receptivo” compareceu ao hotel com um monte de ingressos e, ao conferir, lá estava o ingresso para Wayna Picchu (pelo menos não paguei o extra, mas foi no bolo do pacote). Chegando em Águas Calientes (cidadezinha base para o parque), ganhei um guia exclusivo (isso foi muito bom) e o primeiro dia foi perfeito, já que havia tempo e disposição de ambas as partes. Ele explicou tudo, tirou fotos nos melhores lugares e ângulos e me deu uma força para subir a montanha. 

“- Veja: alguma coisa fez que o ingresso viesse pra você. Tente, ao menos, se não gostar você volta.” 

Nem imagino a origem extraterrena do ingresso, mas acordei mega cedo e fui para a fila do ônibus. Minha ideia era ver o nascer do sol e, depois, encarar a montanha, já que minha entrada era até às oito horas. Infelizmente a fila do ônibus era gigantesca e só peguei o final do amanhecer (quem conseguiu chegou na fila lá pelas quatro da manhã), mas consegui uma foto muito boa. Respirei fundo, outra fila para entrar na montanha e vamos caminhar, deixando toda paúra para trás. Ao menos a altitude lá é uns mil metros a menos do que em Cusco o que já alivia bastante a situação do ar rarefeito. 

Disse Exupéry, no seu livro “Terra dos Homens”, quando relatava a saga do piloto Henri Guillaumet cujo avião caiu nos Alpes: “Depois de dois, três, quatro dias de marcha tudo o que se deseja é o sono. Eu o desejava. Mas ao mesmo tempo pensava: Minha mulher... se ela crê que estou vivo, ela crê que estou andando. Os companheiros creem que estou andando. Serei um covarde se não continuar andando. E andava.” 

Andar foi a solução: claro que estou sendo meio dramático, mas já que topei subir vamos andar. O treino em Cusco ajudou a respirar e, depois de determinado tempo, já não ofegava mais (aliás também não sentia as pernas). Muito passavam por mim, mas eu continuava andando. Procurava olhar a paisagem e encontrei orquídeas, mas creio que na primavera apareçam mais; vi montes nevados, a cidade diminuir de tamanho, muitas pessoas ofegantes (mesmo os mais jovens) até que surgiu uma estrutura que pareceu o final da trilha (não é, mas a partir daí não dá pra voltar pelo mesmo caminho, então tenha certeza de que vai continuar). Chegar ao topo foi questão de mais alguns minutos. A visão era legal, não tenho nenhum arrependimento de ter feito a trilha, mas poderia passar sem essa sem qualquer remorso. De qualquer forma, eu subi (pior foi descer) a montanha e, depois disso, a vida seguiu igualzinha e eu mostrei que ainda faço o que eu quiser fazer. 

O fim do dia foi no meio da tarde; pessoas reunidas para o trem de volta a Cusco. Coraline aguardava seu irmão (gêmeo) que fora ao banheiro. Ele a viu e não acreditou na coincidência... mas isso será história para outro dia.

 
Boa Noite! Eu sou o Narrador.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Vai subir a serra no feriado?

A pergunta do título é bem comum no Rio de Janeiro, pois a serra proporciona ou Petrópolis, ou Teresópolis ou a mais distante Nova Friburgo, três cidades ligadas por uma rodovia meio mais ou menos, mas que guardam os melhores destinos nessa época de frio ( em outras épocas também). Tive o prazer e a honra de morar em Petrópolis e já falei disso algumas vezes. Por aqui o lance é ir para a praia, mas somente quando esquenta (o que é bem impreciso). 

Da mesma forma que morar em Petrópolis, tirar férias é um privilégio e conseguir viajar é uma dádiva que recebo há alguns anos. Dessa feita escolhi Machu Picchu como objetivo principal, mas não foi por lá que comecei. Depois de estudar bastante o roteiro, procurei uma agência conhecida (a mesma que me levou à Fernando de Noronha) e negociei até chegar no ponto que eu queria. O começo mesmo foi em Lima, mas até chegar lá eu ainda fiz duas paradas, pois programei a saída do Rio de Janeiro e isso seria por minha conta, usando milhas e coisas do gênero que fui acumulando. Achei essa ideia boa, pois, caso contrário, a viagem total duraria muito mais que 24 horas de duração, considerando as conexões (melhor ir aos poucos). 

Na capital peruana eu ganhei duas horas, devido ao fuso horário, e tive o dia inteiro para passear por Miraflores (algo equivalente à Ipanema carioca), comprar o chip pré-pago para o celular (num supermercado mesmo) e trocar algum dinheiro. À noite fui conhecer o Circuito Mágico das Águas e isso tudo por minha conta mesmo (particularmente gosto de horários livres para fazer o que me der na telha). 

Aí, no dia seguinte, vamos subir a serra! No Rio é só pegar o carro e encarar uma estradinha meio sem vergonha; no Peru, tem que pegar um avião já sabendo que a coisa não é logo ali porque fica a mais de 3000 metros de altitude, o que causa o efeito “Zagallo”, onde era nítida sua cianose ao declarar “Vocês vão ter que me engolir” na conquista da Copa América em 1997. Aliás, o ar rarefeito, a necessidade de tomar muito líquido devido ao clima seco, o chá de coca e o Inka cola transformam nosso organismo num grande experimento bioquímico (deixarei os detalhes mórbidos disso para quem conversar comigo pessoalmente, pois serão horas discutindo transporte de oxigênio, hemodiluição, desidratação, alcaloides, diuréticos e coisas do genero). 

Uma hora de voo e chega-se a Cusco, o “umbigo do mundo”! De lá são três passeios básicos (um para cada dia): City Tour Arqueológico, Vale Sagrado e Maras/Moray que se complementam em informações, antes de conhecer Machu Picchu. Na cidade, vale a pena pegar um mapa e conhecer alguns outros locais, sem guia mesmo, e o “Boleto Turístico” vai ajudar nessa escolha. 

Dicas gerais: 

- Não se assuste com as filas: mesmo no aeroporto elas andam rápido. Ah! A “Íris Lettieri” local não avisa sobre saídas dos voos. 
- Faça os passeios principais com guia, principalmente na Catedral de Cusco que é indescritível. 
- Cambio é fácil em Cusco, mas suas notas devem estar perfeitas. 
- A cerveja Cusqueña é boa, mas o álcool deve ser evitado por conta da altitude. 

 Uma coisa que eu gostei foi observar os alunos com belos uniformes (lá existe esse bom hábito) sem contar que as crianças tem aspecto feliz. Pelo visto a educação é levada bem a sério por lá.

Enfim: apesar de ter feito todo o passeio sozinho, superando as dificuldades que iam surgindo, a experiência foi excepcional e a passagem por Cusco serviu como treino para a ida a Machu Picchu que fica para os dois últimos dias (falarei disso depois).


Boa Noite! Eu sou o Narrador.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Como se fora um anão

Hoje em dia alguns temas são complicados para abordar da forma adequada, pois, caso contrário, poderemos infringir alguma lei ou até ofender terceiros sem a menor intenção de fazer isso. Por conta disso as palavras são estudadas cuidadosamente, visto que o patrulhamento é implacável.

Já comentei algumas vezes que existe uma tendência bem legal de criar heroínas e fazer releituras das histórias clássicas infantis, principalmente das princesas. Com a chegada da Fiona, aquela situação de fragilidade e inocência feminina que imperava nos contos de fada acabou de vez (a mãe da Fiona quebrando a parede com a cabeça é o máximo) e Branca de Neve virou uma guerreira, junto com seus amigos anões. 

Nem sempre foi assim, como já disse, e eu fui criado com as historinhas da Disney, tanto os quadrinhos como os desenhos animados e, por último, a sensacional Coleção Disquinho que eu até já falei anteriormente. Claro que a história da Branca de Neve estava na lista e eu gostava muito dos anões (se bem que "Espelho, Espelho meu", com a Lily Collins, me fez rever esse conceito). Aquele lance da mina com diamantes nas paredes era o máximo e sonhava, um dia, ver algo do gênero. 

Há muito anos eu conheci as Minas da Passagem, na cidade de Mariana - MG, mas lá a mineração era ouro e o trabalho era dos escravos; desse vez fui conhecer a cidade de Ametista do Sul - RS, onde as pedras preciosas é que são a atração e o trabalho é dos garimpeiros autônomos, regulamentados, que  extraem uma pedra de 900 kg, vendem por R$ 20000,00, recebem 40% disso, se não trabalharem não recebem nada, e essa pedra é vendida por 80000 dólares no exterior (como assim????).

Como todo passeio é aprendizado, também descobri que as minas podem virar adegas quando não houver mais o que tirar delas; nessa etapa, o vinho produzido a partir de uvas vindas da terra adubada com o "cascalho" da mina é estocado numa temperatura constante e natural de 17ºC durante todo o ano. Na visitação, encontramos a cena que eu sempre quis ver: as pedras brilhando na parede (mesmo que sejam aquelas sem valor comercial e que foram deixadas para trás pelos garimpeiros).

De lembrança trouxe uma pedra, mas vou contar isso num outro texto; por enquanto vale a pena relembrar os tempos de criança com a história da Branca de Neve vinda dos disquinhos multicoloridos lá daquele tempo.


http://indicetj.com/disquinho/


Boa Noite! Eu sou o Narrador.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

V.J.M.J.

” V.J.M.J” – Viva Jesus, Maria, José – Sigla que ficava à esquerda do cabeçalho de qualquer coisa escrita no caderno do colégio... daqui a pouco você vai entender isso melhor. 

Acabei de notar que os últimos dois textos começaram com “outro dia”. Essa repetição de ideias, associada a repetição de piadas, comentários e movimentos podem ter um significado patológico, mas eu prefiro pensar que é o crescer da idade que começa a aparecer de forma mais nítida. Uma amiga comentou que estávamos na “adolescência da terceira idade” e achei essa referência muito significativa. Considerando como certa essa possibilidade nem tão remota assim, alguns cuidados já devemos tomar, incluindo uma barra no box do chuveiro (antes que seja tarde). 

Aprendi com o Velho Pai que, em visita a algum local distante onde exista algum amigo, devemos avisar nossa presença sempre que possível. Fiz isso em Lisboa (deu trabalho, mas encontrei minha amiga que mora lá), em São Paulo e, agora, no Rio de Janeiro/Petrópolis, onde faço o circuito tradicional de final de ano, mas não pude avisar a todos que eu gostaria de encontrar. Representaram meus amigos, a Angelina e a Patrícia e, aos demais, deixo aqui um abraço. Essa coisa de avisar e visitar só eu que faço, mas gostaria que outras pessoas fizessem também. É uma forma de rever as pessoas importantes; aquelas que lá estarão; aquelas que fazem a diferença. 

Dessa vez houve outro acontecimento. Em 1971, um grupo de pré-adolescentes começou a transição para o mundo real: entraram para o cobiçado grupo de alunos do Colégio Marista São José que ficava na Rua Barão de Mesquita, na Tijuca. Era o “São José de baixo” (havia outro na Usina, que era “o de cima”); um colégio de excelência, à época, só de meninos (alguns anos mais tarde entraram as meninas). Foram quatro anos de “ginásio” e três de “científico”, onde aprendemos as regras de sobrevivência na selva urbana (ninguém falava de bullying, ninguém morreu por causa disso, mas era a guerra adolescente no seu melhor significado). 

Comandado pelos Irmãos Maristas, uniforme tinha que ser impecável: calça de tergal, sapato “Vulcabrás”, camisa social de maga curta com o símbolo do colégio bordado no bolso; cabelos curtos também, senão aparecia o “Moita”, nosso querido diretor Irmão Roberto, apelido devido à sua habilidade de surgir no meio do “alunado” e puxar os cabelos que se rebelassem à ordem anti-piolho. 

O rigor na educação e no ensino não impedia o lazer e a diversão; muitas coisas boas aconteceram e as lembranças vieram à tona no último dia 21, quando fui visitar o velho colégio, que andara fechado, quase foi demolido, longa história que não interessa agora, com um grupo de ex-alunos daquele tempo. “Bola-ao-mastro” e “dedobol” foram os primeiros comentários que surgiram; muitas histórias foram contadas sobre as brigas (imagina um colégio só de meninos: a coisa não era muito fácil não, mas nada disso virava mágoa ou rancor depois), sobre as gincanas, olimpíadas e passeios, para o deleite dos nosso anfitriões, bem mais jovens, e que agora tentam resgatar essas lembranças. 

Meu caminho de final de ano ainda não terminou, daqui a pouco vou fazer outras visitas e no final da tarde estarei em casa, lá com o Velho Pai, pois casa não é onde a gente vive e sim, como dizia a velha canção: “...a house is not a home, when there's no one there to hold you tight, and no one there you can kiss good night” 

 
Bom Dia! Eu sou o Narrador.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Morando num Shopping

Outro dia alguém me perguntou o que era subúrbio, designação de determinada região do Rio de Janeiro que contempla o entorno da via férrea, inicialmente da Central do Brasil e posteriormente e melhor caracterizada pela Leopoldina. Como disse Vilma Homero, no artigo “Subúrbios: 150 anos de história carioca”: “as áreas ocupadas por uma população operária ao longo da via férrea, que vão de Santa Cruz até São Cristóvão, começam a ser identificadas pejorativamente como subúrbio – a sub urbis. Subúrbio, portanto, eram as áreas distantes do Centro, que não contavam com a infraestrutura e os símbolos de poder econômico...” Quem entende bem dessas coisas é minha prima, também citada nesse artigo, mas acho que não falei muita bobagem. 

Longe dessa história toda, o que se sabe é que o subúrbio cresceu e conta, já há alguns anos, com uma ótima infraestrutura, faltando somente a praia e a definição do que é o “lado de cá” e o “lado de lá” do Méier. O comércio é excelente, existe o Metrô, a Linha Amarela e as ruas com vilas, onde as famílias crescem desde a época das fábricas de tecidos. Justamente no que sobrou de uma delas, a Nova América, cuja sede foi transferida para Duque de Caxias, foi construído um shopping, que manteve o nome, e que hoje é um complexo logístico inacreditável. 

O Rio de Janeiro é uma cidade que se reinventa: há a dengue, a problemática dos serviços públicos de saúde, a confusão das “obras da Copa” que ainda não acabaram e emendaram nas “obras das Olimpíadas”, o calor insuportável, mas nada disso consegue tirar o título de melhor cidade do mundo e o visitante é quem diz isso. Chegar de avião no Aeroporto Santos Dumont (se não aparecer o Godzilla) proporciona a paisagem mais bonita que eu já vi em pousos. 

Por motivos técnicos, que não vêm ao caso, nessa minha passagem pelo Rio resolvi ficar no subúrbio, perto de onde já morei. Escolhi um hotel, claro, mas onde ele fica? Por incrível que pareça, no Shopping Nova América

Uma característica muito legal dos shoppings do Rio de Janeiro é a descontração das pessoas que não se incomodam com o que vestem (não é desfile de modas) e vale a associação “bermuda + chinelo de dedo” sem problemas. A alegria e o colorido contagiam o visitante e as opções gastronômicas atingem todos os gostos e “bolsos”. É um lugar muito bom de passear; “morar” nele, então, melhor ainda, pois você pode olhar tudo e deixar para comprar no dia seguinte, antes do “check-out”; ainda pode tomar uma cerveja, pois você não via dirigir depois; ainda pode ir ao cinema e sair tarde sem problemas de assaltos e toda essa violência urbana; se precisar ir a outros bairros, o acesso ao Metrô é dentro do shopping. Por último, se você estiver acompanhado por alguém que não resiste a "lojinhas" e você não está com saco para isso, é só ir para o seu quarto e combinar algum horário de encontro mais tarde e isso não vai gerar qualquer crise (a menos que você "empreste" o seu cartão de crédito").

Enfim, mais uma invenção do carioca que vale a pena conferir.  


Boa Dia! Eu sou o Narrador.

domingo, 1 de novembro de 2015

Brumas

Encontraram uma caverna e por lá ficaram. A possibilidade de chuva era real e a neblina não deixara o dia amanhecer completamente. Conversaram um pouco, acenderam uma fogueirinha e comeram algumas maçãs que Adrielle levara. 

Eis que um urso apareceu: olhou para os dois, sorriu e sentou a seu lado, como se também quisesse conversar. Apesar de não parecer assustador, ganhou uma maçã do menino como gesto de amizade. Ele comeu e dirigiu-se à Adrielle. 

“ Pequenina, você ainda tem muito o que aprender e seu amigo também. Lá fora existem muitas coisas esperando por vocês, mas precisam acreditar e não mais se esconder.” 

Pasmos, o menino e Adrielle não sabiam o que pensar. 

“Pode ser que ainda encontrem muita escuridão, mas existe luz que cruzará o seu caminho, desde que vocês acreditem nisso e jamais parem de amar...” 

Uma névoa os encobriu e o urso acrescentou: 

“Olhem através dos meus olhos e vejam um lugar muito melhor. Viajem para ele num mundo de fantasias e seus sonhos se transformarão em realidade!”

Há alguns anos que escrevo alguma coisa no Dia das Bruxas, relacionado ao tema, mas este ano eu pulei essa etapa e fiz uma coisinha meio diferente: num passeio recente, onde o objetivo era ver belas paisagens nos Canyons do Itaimbezinho, fomos surpreendidos por dias chuvosos e neblina por todos os lados. Vi muita gente aborrecida porque “não viu nada”, mas acho que a coisa não foi bem assim. 

Num clima bucólico e meio sobrenatural, nosso passeio foi o “lado B” da coisa: a névoa “mostrou” uma paisagem diferente, onde, ao invés de vermos cachoeiras, ouvimos o som da água corrente das cachoeiras, o barulho do vento sibilando pelos canyons, observamos melhor a vegetação à nossa volta e, ao chegarmos à área de piquenique, ainda fomos recepcionados pela gralha azul. Como são momentos difíceis de descrever, fiz um vídeo com algumas fotos e com uma música do filme “Crepúsculo” (Bella's lullaby de Carter Burwell). O texto inicial conta uma historinha relacionada ao dia que Adrielle foi procurar o menino numa floresta e você pode ler o original clicando aqui.


  
Bom Dia! Eu sou o Narrador.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Nas Terras Guarani

- Em sonhos, imaginei a igreja com dois campanários e, dentro dela, vários vitrais. 
- Sim, mas e se nada fosse destruído e o projeto seguisse em frente? 
- Tudo tem coisas boas e coisas ruins: o bom é que seria outro tipo de colonização; o ruim é que não estaríamos aqui. 
- Como assim? 
- Os Guarani não permitiam casamentos fora da comunidade. 

Nos mais de dois mil quilômetros percorridos (ida e volta), para mais uma vez entender que o que nos contaram no colégio não chegava nem perto da realidade, fiquei pensando como escrever este texto. Imaginei uma situação extraterrestre, algo com os Borgs assimilando tudo, mas resolvi começar com o diálogo que tive com a guia Romina, no final da visita à terceira Redução Jesuítica do nosso roteiro.

A emoção foi o ponto marcante de tudo que aprendemos, primeiramente com a Vera lá em São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul (parada obrigatória para entender as demais), um pouco menos com o Julio em San Ignácio Mini (ele era mais politizado e fazia um show próprio à parte) e terminando com a Romina em La Santísima Trinidad del Paraná, no Paraguai. 

Pulando os interesses político-religiosos da época, a ideia era muito interessante: os jesuítas trouxeram um projeto arquitetônico/cultural, os Guarani (em maiúsculo e sem o “s” - explicação da Vera) aceitaram e houve uma troca de informações, sem maiores interesses na assimilação e/ou destruição das culturas (quase uma simbiose cultural). O que chamava a atenção era o dom da música e das artes que foi encontrado, pelos jesuítas, naquela população, teoricamente, sem qualquer instrução para os padrões da época. 

Como a coisa funcionou, chamou muito a atenção e aí vieram os políticos burocráticos junto com a ganância, tudo foi destruído e muitos foram mortos. Só que a Natureza foi sábia e as florestas cobriram o pouco que restou, para que, um belo dia, nossos contemporâneos descobrissem a história através dos monumentos arqueológicos. 

Eu poderia contar muita coisa, mas aí perderia a graça. Deixo algumas dicas: começar pelo Brasil com um bom guia, pois as explicações são indispensáveis quando você atravessa as fronteiras e o bom português é trocado pelo espanhol; ter muita paciência nas aduanas e não esquecer de levar a carteira de identidade da Secretaria de Segurança Pública do seu estado ou passaporte (carteira de motorista, OAB, CRM e outros não são aceitos); cuidado com o câmbio caso você use real ou dólar, principalmente na moeda paraguaia. 

No mais fica aqui meu agradecimento ao Raul e à Elise, da Race Turismo, e aos demais passageiros que tornaram a viagem muito agradável e divertida.

 
Boa Noite! Eu sou o Narrador.

sábado, 6 de junho de 2015

A Mágica do Anel

Uma coisa que raramente acontece comigo é perder alguma coisa (inclusive a paciência). Acho que minha boa relação com aqueles gnomos e duendes brincalhões que escondem as chaves, celulares, carteira e outros objetos, associado a algum espectro obsessivo-compulsivo, deixam minha vida mais sossegada nesse aspecto. Claro que nem sempre isso acontece e levo sustos. 

Há alguns anos ganhei um anel de Alice que só tiro por exigência do trabalho, deixando em algum local seguro. Quarta-feira ele sumiu, mas antes que eu ficasse muito chateado com isso ele foi encontrado por uma colega de trabalho e voltou para o meu dedo. Claro que isso aconteceria: é um Anel Atlante e foi presente, daí ele possui muita energia mágica que teria efeitos adversos se outra pessoa ficasse com ele. 

Para quem não sabe, o Anel Atlante foi um presente deixado pelo Sacerdote Jua no seu próprio túmulo (bom... isso ele pediu para alguém fazer com certeza... talvez tenha deixado um testamento... vamos em frente) achando que alguém encontraria o local no futuro. Lá havia também uma placa de boas vindas e o anel original fora esculpido em arenito. Quem encontrou isso tudo foi o Marques de Angrain e o anel acabou nas mãos do seu assistente (estagiário às vezes se dá bem) Howard Carter. A história é meio longa, mas o que se sabe é que o Howard foi o único sobrevivente da maldição da Tumba do Tutankhamon e ele usava o anel original. 

Por conta dessa “quase perda”, meu pensamento viajou para Santiago de Compostela. A primeira vez que ouvi falar do assunto foi quando li “O Diário de um Mago” do Paulo Coelho, que fala sobre a peregrinação e o Caminho de Santiago. Quando cheguei lá, vinha de um dia anterior bem movimentado e cansativo e de uma viagem (de ônibus, vamos entender bem a coisa) de uns duzentos quilômetros a partir da cidade do Porto. Uns dez minutos de caminhada e o grupo chegou na Catedral e a entrada foi por trás, a partir da Praza das Praterias, pois haviam obras de conservação na entrada principal. A sensação é impressionante, pois vão pessoas de todos os cantos do mundo, alguns peregrinos que fizeram o caminho e o cansaço ajudou a criar o clima (os peregrinos estavam mais cansados). 

De repente vi um sujeito de uns dois metros de altura com roupa de bombeiro. A roupa não chamou tanta atenção, mas um ursinho de pelúcia, preso nela por um velcro, fez minha curiosidade extrapolar a cara de pau e fui lá conversar com o sujeito. Era um peregrino alemão que, obviamente, não falava português, mas falava bem inglês (que também não é bem meu forte) e ele contou que o ursinho era do filho dele, Nicolas (isso é uma coincidência, mas só para os fortes), mostrou retrato, contou da viagem e por incrível que pareça, ambos entenderam o que o outro falava. Lá é assim: independente da nacionalidade e do idioma, peregrinos e curiosos se entendem. 

Antes de partir para o almoço e degustar os "tapas" espanhóis e o “puelo”, tudo isso regado ao sensacional vinho Albariño, que foi oferecido pelo garçom baiano que nos atendeu, dei uma fuçada nas lojas de pratarias e souvenires do local, na busca de alguma coisa para a Bandeja Mágica aqui de casa e vi um anel muito interessante com a palavra “Ultreia” gravada. Claro que não comprei porque existem coisas (e os anéis estão incluídos nisso) que você precisa merecer ou ganhar, mas que você pode comprar se alguém disser pra você que é legal, já que essa pessoa te quer bem. Perguntei o significado e não entendi bem até ontem, quando fui pesquisar. Isso foi uma saga, já que eu não lembrava a palavra, mas vou pular os detalhes da pesquisa e contar o que descobri. 

Essa palavra era uma saudação entre os peregrinos. Na Wikipédia Espanhola (que preferi não traduzir) encontrei uma boa explicação: “ Parece ser que antiguamente los peregrinos se saludaban diciendo "Ultreia, suseia, Santiago" [Ánimo, que más allá, más arriba, está Santiago]. También se ha sugerido que cuando un peregrino saludaba a otro diciéndole "Ultreia" ("Vamos más allá") el otro le respondía con "Et suseia" ("Y vamos más arriba").” 

Vários blogs falam do Caminho de Santiago e encontrei também uma música, uma referência ao Codex Calixtinus, mas são histórias muito longas e esse texto já deu o que tinha que dar. O que importa é que se você um dia encontrar um anel, procure seu dono e devolva (como aconteceu comigo), ou então deixe no mesmo lugar que você o achou para que o dono o encontre. Se um dia fizer o Caminho de Santiago, compre o anel com a inscrição “Ultreia”, pois, com certeza, você será merecedor dessa lembrança. Por último, se você perder o anel no mar, leia esse meu outro texto, onde existe uma solução para o problema. 

  
Boa Tarde! Eu sou o Narrador.

sábado, 2 de maio de 2015

Pelas terras do além-mar

"Muito além dos confins inexplorados da região mais brega da Borda Ocidental desta Galáxia, há um pequeno sol amarelo e esquecido. Girando em torno deste sol, a uma distância de cerca de 148 milhões de quilômetros, há um planetinha verde-azulado absolutamente insignificante, cujas formas de vida, descendentes de primatas, são tão extraordinariamente primitivas que ainda acham que relógios digitais ainda são uma grande ideia" (Douglas Adams – O Guia do Mochileiro das Galáxias) 
  …........
Significado de Férias s.f.pl. "Época de repouso. O corpo humano não pode atuar com toda sua potencialidade sem períodos frequentes de repouso. Há muito os médicos reconheceram que várias doenças do corpo e do sistema nervoso podem ser curadas apenas com a ausência da atividade normal e cotidiana. A mudança da rotina cotidiana que ajuda a restaurar o corpo, a mente e a disposição das pessoas chama-se férias."(Dicionário Online de Português) 

Então... pois! 

Antes de conhecer terras distantes vale a pena dar uma estudada, conversar com pessoas mais experientes e consultar o Google. Fazendo isso, ao final da viagem, você entenderá que tudo foi em vão e que boa parte das coisas que você aprendeu e planejou, nessas pesquisas, foram totalmente inúteis. O grande detalhe é saber o que aconteceria se você não fizesse tal planejamento. 

A primeira sensação que você experimenta acontece naquele momento da mudança do fuso horário, onde algumas horas são “puladas” e você toma café da manhã no horário onde você estaria dormindo, eventualmente bêbado, assistindo um programa de leilões ou alguma sessão religiosa de autoajuda. A conclusão é que você não mudou de país e sim atravessou um portal dimensional, principalmente quando a cadeira do avião chega a ser pior do que a do ônibus intermunicipal. 

Sem desanimar (“Don't Panic”), você toma um café bem forte (já que não resta muita coisa a fazer) e sai pela cidade a procura das diversas características típicas locais. Sua mala, repleta de “utilidades”, é deixada para trás e substituída por uma mochila (tão repleta como), onde você encontra de tudo menos uma toalha, que seria a melhor coisa a levar, se você tivesse consultado a literatura correta. 

Nessa nova dimensão (agora já devidamente adaptado), você desfruta de belas paisagens, admira construções da época medieval e começa a pensar como é que os sujeitos da época conseguiram construir tantos monumentos e castelos, considerando a tecnologia, teoricamente, terráquea e primitiva (eles seriam bem úteis, nos tempos atuais, para concluir algumas “obras da Copa”, principalmente as dos aeroportos). Considerando que, em determinado momento, o planeta foi destruído pelo Vogons, para a construção de uma via intergaláctica, e reconstruído tempos depois, quem sabe alguma tecnologia alienígena foi deixada para trás (assim como alguns representantes que deram origem ao Elvis, ao Raul, ao João Maria, dentre outros). 

Nos diversos passeios você precisa de algum veículo, para o seu transporte e de seus 41 companheiros de viagem, e um ônibus é a solução. O que suas pesquisas não contaram é que as estradas não possuem vários locais para eventuais paradas estratégicas e que os autocarros locais não possuem o indispensável “WC”, logo, a toalha anteriormente citada pode vir a ter um outro uso, em caso de acidente fisiológico. 

A alimentação é outro item indispensável e os quilos adquiridos com as guloseimas serão deixados por lá nas intermináveis caminhadas entre o check-in e o portão de embarque dos aeroportos, nas incursões pelas “lojinhas” e no carregar das compras. Para evitar acidentes durante as degustações, se você for comer coelho certifique-se que ninguém do grupo possui algum trauma de infância relacionado ao bichinho e que o gato bem gordo que circula entre as mesas ainda estará lá ao término do jantar. Um outro detalhe importante é tomar cuidado com o que pede nos restaurantes: o cardápio será estranho e se você tentar pedir algo em português (brasileiro), certifique-se da tradução. Na Espanha, por exemplo, a tradução de polvo (aquele bichinho marinho cheio de tentáculos) é “puelo”; se você insistir em “polvo”, poderá conhecer vários homens e mulheres interessados numa relação sexual, ou em oferecer heroína (droga), causando vários transtornos. 

Como a comunicação é indispensável nos dias de hoje, um smartfone com acesso à Internet é fundamental. Saber das notícias do mundo de lá, falar com familiares utilizando a tecnologia, consultar mapas, tudo é facilitado pelo Wi-Fi. Caso seus familiares não compartilhem da tecnologia, um “SIM card” local é uma ótima opção, para evitar as tarifas abusivas que são cobradas pela sua operadora de celular. O grande problema é que você começa a pensar, depois de ler sobre o tufão de Xanxerê, o terremoto no Nepal, o vulcão do Chile, as manifestações dos professores no Paraná e a greve na TAP, que os Vogons voltaram e que não haverá mundo no seu retorno à pátria. 

Enfim... o que importa mesmo é o amor ao que se faz, mesmo que “a Enciclopédia Galáctica defina o amor como algo incrivelmente complicado de se explicar e que o Guia do Mochileiro das Galáxias defina amor como algo geralmente doloroso e, se puder, evite-o. Mas para o azar dos terráqueos, eles nunca leram o Guia do Mochileiro das Galáxias.”


Bom Dia (ou será boa noite? – ah! esse jet lag!)! Eu sou o Narrador.  

N.N: Segundo o Guia do Mochileiro das Galáxias, “você pode usar a toalha como agasalho quando atravessar as frias luas de Beta de Jagla; pode deitar-se sobre ela nas reluzentes praias de areia marmórea de Santragino V, respirando os inebriantes vapores marítimos; você pode dormir debaixo dela sob as estrelas que brilham avermelhadas no mundo desértico de Kakrafoon; pode usá-la como vela para descer, numa mini jangada, as águas lentas e pesadas do rio Moth; pode umedecê-la e utilizá-la para lutar em um combate corpo a corpo; enrolá-la em torno da cabeça para proteger-se de emanações tóxicas ou para evitar olhar a Terrível Besta Voraz de Traal; você pode agitar a toalha em situações de emergência para pedir socorro. Naturalmente pode usá-la para enxugar-se com ela se ainda estiver razoavelmente limpa.” Ah! Agora 'tá explicado!

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Entre Tartarugas, Golfinhos, Pássaros e Tubarões

”Os passageiros sentados à esquerda do avião estarão vendo Noronha, durante nosso voo panorâmico, antes do pouso; os passageiros sentados à direita estarão vendo os passageiros da esquerda vendo Noronha.” 

Chegar ao arquipélago é uma sensação indescritível e a “zuera” já começou no voo com as informações do comandante. É interessante ver as pessoas desembarcando, muito animadas e sem ter a menor ideia do que vão encontrar pela frente, enquanto os que vão embora estão francamente exaustos, mas certamente satisfeitos. Particularmente eu pensava que encontraria algo mais rústico, tipo Ilha da Fantasia, com o Tattoo e o Sr. Roarke nos esperando, mas encontrei um receptivo muito organizado, com ônibus com ar condicionado, e cumpridor de todos os horários. Só que antes de encontrar nossos recepcionistas, preenchemos nossa ficha, no melhor estilo “Big Brother”, e passamos à categoria de monitorados durante toda a estadia; nossa individualidade fica entregue aos roteiros e mesmo aqueles que seguirão por conta própria terão suas fotografias aparecendo nos computadores presentes nos acessos às praias. O contato com o mundo exterior é bem restrito, já que não há WiFi com facilidade, o 3G ainda é projeto e o celular só pega em alguns locais. Considerando tudo isso, o que importará é a felicidade de interagir com a natureza sem a menor possibilidade de resolver alguma coisa que surja lá de onde você veio.

Fiquei no Sueste, uma linda praia de águas calmas e cristalinas, onde existe um ponto de apoio para o turista comprar o cartão de acesso ao parque (necessário para quase tudo e é complementar à taxa de preservação ambiental que você paga no aeroporto ou, antecipadamente, pela Internet). Nesse ponto de apoio você também encontra água potável, mais em conta, se você tiver um squeeze para abastecer (pode comprar um lá também). Vale muito a pena e essa iniciativa reduziu em mais de 60% o lixo gerado pelas garrafas pets. Na praia do Sueste você pode fazer um passeio no mar, naturalmente com equipamento de mergulho e colete, onde você é rebocado por um guia e observará, com segurança, muitas tartarugas, muitos peixes e até um ou outro tubarão. Diz a lenda que não há qualquer registro de ataque de tubarão a seres humanos na ilha, se bem que nem todo mundo que é atacado por um tubarão volta pra contar a história (segundo um dos diversos pesquisadores que ministram palestras, interessantíssimas e imperdíveis, na sede do Projeto Tamar – a “zuera” continua até nas palestras). 

Noronha possui diversos atrativos que modificam dependendo da época do ano e é importante o turista pegar essas informações; efetivamente não é um roteiro estável e se a pessoa não programar muito bem, corre o risco de não gostar (principalmente se for um chato!). Fiz passeios básicos, com caminhadas leves (mas descobri mais alguns músculos desconhecidos mesmo assim), e bem completos por conta do guia que nos levou no chamado “Ilhatur” (não vou dar muitos detalhes porque tudo é “encontrável” na Internet – pesquise antes, pois lá a internet rápida é mais lenta que um modem de 28kbps); na sequência veio o passeio de barco que é acompanhado, em parte, pelos golfinhos rotadores e essa é a melhor parte do passeio. Existe um mirante para observar o descanso dos golfinhos também, mas, infelizmente, não os avisaram que iríamos lá e só valeu pela vista mesmo. Por último, veio um passeio pelo centro histórico, onde fica um grande reparo, pois não há qualquer conservação razoável do pouco que sobrou das construções. 

Apesar de paisagens fascinantes, a impressão que tive é que tudo vai acabar por conta da degradação ambiental. Por mais que os pesquisadores se esforcem, a destruição começou no passado com a introdução de espécies exóticas como o “mocó” (uma espécie de preá que era usado para “tiro ao alvo”, porém eles reproduzem muito rápido e se alimentam de cascas de árvores, contribuindo para o desmatamento), assim como um lagarto de hábitos diurnos que foi introduzido para comer ratos e sapos (que possuem hábitos noturnos) e encontrou alimentos nos ovos das tartarugas, e outras espécies da flora e fauna. Uma coisa é boa: não existem cobras na ilha (mas existem mosquitos e o repelente faz parte do arsenal do turista, assim como o filtro solar). 

Em muito pouco tempo você vira “morador”: rapidamente descobre o trajeto do ônibus, descobre onde comer gastando menos (mas tudo é caríssimo, não se iluda), conhece vários estagiários voluntários (que passam lá de dois a seis meses – se o leitor é estudante de biologia, turismo e afins, vale a pena conferir o site do ICMBio), além de outras coisinhas que tornam a visita mais interessante. 

Algumas dicas: 
- O lance do squeeze é bem legal. 
- Geralmente às segundas e quintas, na praia do Sueste, os biólogos do ICMBio fazem a “captura intencional da tartaruga”, para marcação e estudos, e isso é aberto ao público. 
- As palestras na sede do ICMBio são diárias e é um ótimo programa para iniciar a noite. Ao lado existem dois restaurantes que buscam você na pousada e depois levam de volta (desde que você jante por lá). 
- Se você for à praia da Atalaia, pesquise antes, pois é necessário agendar e você deve usar uma vestimenta com fator de proteção solar, além de outros equipamentos de mergulho (se for o caso). As blusas com FPS 50 são fáceis de achar em Noronha e não são caras. 
- A melhor “lojinha de lembrancinhas” (se é que vai sobrar dinheiro pra isso) fica na única farmácia local que é próxima do Restaurante Flamboyant, onde há buffet a quilo (100g custam o mesmo que 1 litro de gasolina – preço Noronha). 
- À exceção do passeio de barco tradicional, use tênis em todos os outros e leve o chinelo na mochila. 
- Para quem vai sozinho, contratar um pacote e um receptivo pode sair mais em conta do que fazer tudo “na unha” 
- A “zuera” faz parte do passeio.  


Boa Noite! Eu sou o Narrador.