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domingo, 17 de maio de 2015

O Aquário

”Eu preciso de um apoio: minha vida e minha obra são imprevisíveis e eu preciso de alguém que entenda isso e que possa estar lá quando eu não puder; alguém que entenda que quando eu não estou lá é porque eu preciso estar aonde eu estiver. Preciso de alguém que acredite e apoie isso. Pareço louca, mas eu não sou!” (Grey's Anatomy – 11x09 – versão livre do diálogo de Meredith com a candidata a babá) 

- Vendo "Grey's Anatomy"? 
- Sim! Yasmin adora... tanto que ela dormiu em menos de 1 minuto de filme! - Mônica riu. 
- E como foi lá? Ela melhorou? 

Depois do nascimento de Rodrigo, coberto de imprevistos, Bia mudou: bebê prematuro (não foi um prematuro grave, mas sempre dá mais trabalho – ele está bem atualmente, sem problemas), marido de licença médica (já está recuperado também e já voltou a jogar futebol com os amigos quando é possível) e retorno ao trabalho (Bia é formada em jornalismo, tem um blog, e passou um tempo frequentando alguns ativismos relacionados a gravidez e parto, usando um pouco da experiência que ganhou no nascimento do bebê), a amizade das duas não chegou a estremecer, mas alguma coisa diferente acontecera. Mônica esteve lá algumas vezes, mas Bia estava sempre ocupada com alguma coisa e as visitas eram rápidas. 

Dessa vez, na comemoração do aniversário do filho (só um bolinho mesmo, para marcar a data), ela estava mais calma e puderam conversar. 

- Sabe, Mônica, foi muita piração e peço até desculpas... 
- Sem essa, Bia! Somos amigas e amigos entendem tudo! 
- Não! Eu passei dos limites! 

Agora, escrevendo um livro e alguns artigos, para a revista que trabalha, ela reflete sobre tudo.

- Quase perdi meu casamento em cima dessa loucura que foi o ativismo! Você não imagina as coisas que eu li, que eu ouvi e, você sabe, cabeça de jornalista viaja mesmo, principalmente quando passa por problemas e resolve entender o que existe. O que mais chamou a atenção foram pessoas que ficaram deprimidas e tristes porque seus "planos" não deram certo, mas continuaram sadias, com filhos normais e vida sossegada. E quem falou que estava nos meus planos o meu acidente? Vamos cantar parabéns? 

Yasmin ficara entretida, com um aquário virtual, e não prestou atenção quando Mônica chamou, mas quando soube que era a “hora do bolo”, saiu correndo para cantar também (do jeito dela, claro!). Depois do festejo, retomou a distração.

- Ela gosta muito de peixes. Sempre vamos ao mercado da ilha assistir a chegada dos pescadores. 
- Esse aquário é ótimo. Pensei num de verdade, mas seria outra coisa pra cuidar e aí isso não ia prestar. 

A hora passou rápido, chegaram as despedidas e Mônica foi embora, sob os protestos de Yasmin. 

- E o que ela concluiu? - perguntou Leo. 
- O mesmo de sempre: fodam-se os intelectualóides que acham que sabem de tudo e, ainda por cima, querem que os outros só façam o que eles dizem, porque só o que eles dizem é que está certo. Para eles, o melhor seria ter um aquário, só que cheio de humanos que nada mais fariam do que nadar de um lado para o outro sem chegar a lugar algum. 
- Bom... pelo visto ela melhorou e você (ainda bem) continua a mesma! - Leo riu. 
- A sorte dela é que ela não é a Meredith... aliás... a minha sorte também! Você leva Yasmin pra cama? 




Boa Tarde! Eu sou o Narrador.  

N.N.: Quer ler mais sobre “Leo e Mônica”? Clique aqui.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Orquídeas e Margaridas

“Talvez as formas e as cores de uma orquídea nos surpreendam mais do que a simplicidade de uma margarida, mas devemos lembrar sempre que as duas são flores.” (Daniela Raffo) 

O empate, no jogo do Brasil com o México, não atrapalhou a visita. Mônica finalmente foi ver a amiga Bia, um mês depois que recebeu alta definitiva do hospital, onde tivera Rodrigo. Foi sozinha, para não atrapalhar com outra criança junto. 

“Depois do acidente eu lembro de pouca coisa. Muito barulho de sirene, depois um "bip bip" de alguma coisa que deveria ser um monitor e acordei num quarto, com um choro de bebe que não era o meu e sim de um casal que ocupava o outro leito e aí que minha mãe contou, mais ou menos, o que se passara. Eduardo estava internado, em outra ala do hospital e eu fui transferida para a maternidade, onde os médicos indicaram uma cesariana, mesmo que eu ainda estivesse de 35 semanas, mas como o acidente pareceu grave, eles preferiram não arriscar, já que o hospital era pequeno e não tinha tantos recursos assim.” 

Bia foi criada como uma princesinha. Ainda estava na dúvida se teria parto normal ou não, mas nem houve condição de decidir. A única coisa certa é que seria numa maternidade “de ponta”, na zona sul do Rio, já que seu seguro dava a cobertura. Um passeio rápido para ultimas compras para o bebê, numa outra cidade, onde as roupinhas eram muito bonitas, virou um pesadelo, quando um caminhão perdeu os freios, bateu no carro deles que saiu da estrada e ficou pendurado numa ribanceira (por sorte havia um salgueiro bem valente para segurar o veículo). Acabou internada num hospital público mesmo, sem maiores mimos ou luxos, mas com uma equipe dedicada e acolhedora. Claro que estranhou: ao invés de um quarto privativo, dividiu uma pequena enfermaria de dois leitos, por 10 dias, com outras companheiras, que logo levavam alta, já que seus filhos não ficaram na UTI, como o seu. O quadro não era grave, mas era um bebê pequeno e os médicos preferiram observar de forma mais contínua. 

“Era muito estranho. Minha mãe ficou comigo, mas eu não ficava à vontade, principalmente quando trouxeram Rodrigo para que eu amamentasse. Tinham outras pessoas, era tudo muito esquisito.” 

A sala da serviço social da maternidade foi um alento, para Bia, nesses momentos confusos. Apesar de minúscula, tinha elásticas dimensões, onde todos eram bem vindos. Através de uma pequena porta aberta para o corredor, que lhe proporciona a visão e a audição dos que por ali desfilam, a assistente social chega a conhecer a identidade de um ou de outro pelo som do caminhar; não se espalha em sorrisos ou em benefício assistenciais e sim em agenciamentos precisos e agudos, frente a uma vida sem coloridos artificiais, mas exatamente assim, da forma que é, e do quanto é. Seu olhar é largo, é critico, mas sobretudo é acolhedor.; e acolhe porque, mais do que tudo, sabe silenciar frente ao drama do outro e, tal qual copo vazio, absorve sem julgar. 

“Conversei muito com ela e com outras mães da UTI, que já estavam lá há muito mais tempo do que eu e ainda continuaram quando eu sai. Nossa sorte é que estávamos numa maternidade “humanizada” e as pessoas eram muito legais. Só que isso indicava a falta de privacidade que te falei, pois lá os maridos acompanham as esposas e ai compartilham também das nossas noites de puérperas, em nossos leitos de leites, sangues, alegrias, dores e choros de bebês.” 

Mônica ouvia tudo com certo espanto. A amiga mais nova deu a impressão de ter amadurecido séculos, até no jeito de falar. Bia era insegura, mas, depois de tudo isso, surgiu uma pessoa completamente diferente, como se estivesse somente escondida esperando o momento certo de aparecer. 

“Eu ainda dei sorte, por um lado, mas outras mães, que estavam em outros quartos, contaram de seus constrangimentos frente ao olhar do marido da "outra' companheira de quarto. Como eu estava com minha mãe e, geralmente, eu amamentava na UTI - só nos dois últimos dias é que o Rodrigo ficou comigo no quarto - não havia grande problema, mas mesmo assim foi chato. Elas sentiram a mesma coisa que eu, da sensação de desconforto quando o avental do centro cirúrgico se abria em seu corpo exposto, sob uma cegueira hipócrita do sexo. Em seu amamentar seguido pelo canto de olho, do outro homem, conhecido há pouco e, não poucas vezes, cheirando a pinga.” 

Rodrigo chorou, Bia levantou, pegou o garoto no colo, fez um agrado e foi amamentar. A cabeça de Mônica rodava, cheia de pensamentos. Com ela foi diferente, não foi fácil também, mas a realidade que conheceu, pelas palavras da amiga, nunca passara em sua cabeça. 

“É... assim caminham as sistematizações que, fora da possibilidade de um capital que garanta a individualidade, transformam o sujeito tal qual sua natureza animal. Mais ou menos assim: além de não ter a possibilidade de escolher o médico que vai atender ao seu parto, de não poder decidir a forma de parir, a forma de alimentar o seu filho, tem que dividir o quarto não com outra mulher, mas com o marido dela.” (Sarah) 

 
Boa Noite! Eu sou o Narrador.  

N.N.: Agradeço à amiga, Sarah Alcantara, que escreveu o texto original, editado para o blog, e autorizou a publicação. 

domingo, 1 de junho de 2014

O Amor Nos Tempos da Copa

Muita gente da minha geração só foi conhecer a Copa do Mundo em 1970, quando a equipe brasileira foi campeã no México. Éramos muito crianças para ter ideia do que era ditadura militar e alguns nem pra time local torciam. Lembro que vários jogos eu vi na casa da minha avó, cuja janela dava de frente para a Rua Uruguai, na Tijuca, e, depois das vitórias, sempre havia comemoração com desfiles de pessoas na rua e era bem divertido. Em 1974 tinha a televisão a cores, como novidade; em 1978 eu não lembro direito, porque estava às voltas com o vestibular, mas em 1982 a decoração das ruas é que era a coisa mais marcante nessa época. 

Com os pais de Ellen não foi muito diferente, só que eles moravam em Brasília. Sua mãe, bela cabocla amazonense, fora morar por lá bem pequena, quando a família arrumou emprego na construção de alguma coisa na cidade e nunca mais voltou para Manaus; seu pai, pelo pouco que se sabe, era filho de diplomatas de algum desses países, onde loiros de olhos azuis são comuns, já que ela puxou totalmente a ele no quesito aparência. 

Concebida na comemoração do tricampeonato brasileiro, seu nascimento foi na Maternidade Carmela Dutra, no bairro do Lins de Vasconcelos, pois sua mãe, que tornou-se adolescente inconsequente, foi expulsa de casa e fugiu para o Rio de Janeiro, onde, grávida e faminta, foi acolhida por um casal e com eles morou a vida toda, garantindo uma infância confortável para Ellen que virou a alegria da casa. Bom... o casal acabou assumindo o papel de avós, a mãe dela era meio filha, meio empregada, tudo deu certo, mas vamos pular essa parte para chegar ao que interessa. 

Viver no subúrbio, naquela época, era legal: muitas casas, principalmente em pequenas ruas, denominadas “vilas” (algumas ainda não foram substituídas por prédios e foram os “protótipos” dos atuais condomínios fechados das cidades grandes), onde todo mundo se conhecia, as crianças brincavam na rua, jogando bola e soltando pipa. Ellen chamava a atenção porque era muito “moleca”, destoava pela aparência e jogava futebol como ninguém, sendo a preferida da turma quando o assunto era “pelada”, obviamente no bom sentido da gíria. Em 1978, já com 7 anos, acompanhou sua primeira Copa do Mundo, com seus amiguinhos de vila, lamentou a perda, mas nem ligou muito porque já era flamenguista doente e seu time entrava na “Era Zico”. Em 1982, despediu-se dos amigos e foi morar na Tijuca, onde frequentava o clube local e era meio complicado jogar bola por lá (mas ela conseguia). 

Com a animação da Copa, logo incorporou-se aos grupos, que faziam pedágios nos sinais para conseguir grana para a decoração das ruas (ela é que conseguia o maior número de doações); o “Alzirão” (inaugurado em 1978) começava a ganhar corpo e foi lá que ela conheceu o pai da Bia, esposa do Eduardo e amiga fiel da Mônica, de quem já falei algumas vezes em outros textos. 

Ele era mais velho, muito tímido, mas ficou encantado: fazer o que né? Acompanhou seus passos, à distância, nos quatro anos seguintes, pois frequentava o mesmo clube e sempre que possível ia lá vê-la jogar. Em 1986 ele continuava “babando” por ela, mas teve que esperar até o o Brasil perder para a Argentina em 1990, quando, enquanto ela chorava copiosamente, lá no mesmo “Alzirão”, onde ele a viu pela primeira vez, Roberto perdeu a timidez e a amparou. Conversa vai, conversa vem, começaram a namorar. 

Com a história marcada pelas comemorações, claro que a Bia participaria disso, pois nasceu justo na hora dos pênaltis da final contra a Itália, em 1994, e é lógico que alguém estava com a televisão ligada em algum lugar e que dava para ouvir à distância.

- Força, Ellen! 
- Caralho! Como que o Márcio Santos me perde um pênalti! 
- Deixa o jogo, Ellen, que a Bia tá nascendo! 
- “Vai que é sua, Taffarel” - gritava o comentarista! 
- Ellen, força que agora vai! 

E o choro de Bia e alguns “puta que pariu” palavrões misturaram-se aos gritos de “É Tetra”! 

Este ano tem Copa do Mundo outra vez, só que a coisa está bem diferente: Ellen e Roberto são avós, a animação é a mesma, porém a política anda complicando as coisas e vão é assistir tudo pela televisão mesmo (isso se der tempo), mas os tempos do “Alzirão” serão sempre inesquecíveis.  


Boa Noite! Eu sou o Narrador.

domingo, 11 de maio de 2014

Conto do Dia das Mães

Dia das Mães é aquele segundo domingo do mês de maio, onde a maternidade é comemorada de alguma forma. Quando os filhos estão no colégio, a semana que precede geralmente é complicada: diferente do Dia dos Pais, que também cai num domingo, a festinha escolar, para as mães, acontece no meio da semana, gerando muito corre corre, quando elas possuem alguma profissão, pois tem que dar um jeito de sair do trabalho para comparecer e não causar frustração nos filhotes (os pais não tem esse problema, porque a festa é feita num sábado).

Pois é... mãe é correria o tempo todo. Dizem que isso tudo anda mudando, pois a sociedade já deixa o pai participar bem mais, só que muita coisa ainda tem que evoluir. No caso de Mônica, não houve festinha escolar; Yasmin tem um ano e um mês e só conheceu a própria festa de aniversário, que foi comemorada em casa somente com seus pais (caso contrário isso seria uma grande confusão que eles preferiram deixar para o ano que vem). 

De qualquer maneira, acordaram cedo, pegaram a primeira barca que navegou com auxílio de radar, já que a neblina cobria toda a baía. Por conta disso a viagem demorou um pouco mais e o frio da manhã não incomodou muito, pois tanto ela quanto a filha estava bem agasalhadas (levaram casaco, é lógico). Seu Antônio, taxista que servia a família há tantos anos, não se incomodou de esperar, considerando que, devido às obras do porto, mesmo no domingo, a bagunça do trânsito era certa. 

- Vai almoçar com sua mãe, né? Já não a vejo há bastante tempo! 
- E o senhor, vai trabalhar o dia todo? 
- Não, dona Mônica! Hoje quem faz o almoço sou eu e já vou pra casa providenciar o rango! 

Enquanto isso, lá na ilha, Leo e o sogro, com um batalhão de funcionários, já arrumavam o almoço no restaurante da pousada. Todos os lugares foram vendidos com antecedência e o lucro era certo, assim como o tumulto da fila na hora de entrar. Ainda serviriam um lanche, mas isso vou contar depois. Sim, Dia das Mães tem disso: se você não é o dono do restaurante e não fez reserva antecipada, há de ter uma surpresinha na hora do almoço. 

O dia passou rápido, claro que a mãe da Mônica fez as reclamações de praxe, a chantagem emocional já velha conhecida, soltou a frase típica “agora que você é mãe vai ver como a coisa funciona”, mas tudo correu bem. Afinal, mãe é mãe e merece sempre nossa companhia. Na volta, chamaram o radiotáxi, pegaram um catamarã que era mais veloz e chegaram a tempo para o lanche, que foi uma grata surpresa: era mais uma festa, onde os funcionários que trabalharam levaram suas famílias, era um tal de mãe pra cá, mãe pra lá (a mãe do Leo também foi, claro), presentes foram distribuídos e tudo isso por conta da excepcional renda do almoço, que o pai da Mônica preferiu não embolsar e sim festejar. Todos felizes e exaustos, Yasmin curtiu muito, mesmo sem entender direito, dormiu cedo e Mônica ainda recebeu um belo buquê de flores. 

- Então... gostou da comemoração surpresa?
- Claro, né, Leo! Ano passado Yasmin era muito pequena e aí a ideia era outra. Ei... pega meu celular ai que chegou SMS.
- De quem é?
- Da Bia... Rodrigo nasceu hoje. É prematuro, está na UTI, mas passa bem... 

Bom... o texto é em homenagem às mães, nessa data, e a foto em homenagem à minha mãe que, hoje, é representada pelo meu pai, que acumula as duas funções. A caixa de costura está guardada em boas mãos, lá com Alice (é assim que eu chamo essa amiga por aqui), mas simboliza muito bem o seu trabalho. 


Boa Tarde e Feliz Dia das Mães! Eu sou o Narrador.

domingo, 30 de março de 2014

Domingo de Chuva

O outono, lentamente, começa a marcar a baixa temporada nas cidades praianas e o movimento de hotéis e pousadas também fica bem preguiçoso. Aproveitando que a previsão era de chuva para o domingo, o pai da Mônica resolveu dar uma folga para os funcionários e fechou parte de seu estabelecimento, após o check out de alguns poucos hóspedes, logo pela manhã. Para não decepcionar alguns eventuais e raros visitantes, somente a cafeteria permaneceria aberta e ele mesmo serviria os fregueses. Alcione se ofereceu para ajudar e isso lhe deu a ideia de pegar Yasmin para passar o dia por lá. Um pouco relutante, Mônica acabou achando a novidade interessante: acordou cedo e, após a amamentação, arrumou a menina, agora quase com um ano, encheu uma mochila com os víveres habituais de um bebê e, quando seu pai chegou, ela já estava prontinha para o dia com o avô. 

Morar longe demais das capitais (como dizia o Gessinger), numa cidade ingênua e tão pequena, onde os jornais não chegam, a parabólica é seletiva e a opção é acompanhar as notícias pela Internet mesmo (aproveitando que ainda não censuraram), algumas coisas chamaram a atenção, passando direto pelas tradicionais notícias de violência. Além dos insetos no chá de camomila (que foi abolido do cardápio da pousada), uma briga judicial na Itália, onde os avós são acusados de intromissão na vida dos netos a levou à uma reflexão: será que ela estaria prejudicando a relação de Yasmin com os avós? 

Voltou para a cama, onde Leo ainda dormia. Assim ficaram abraçados mais um tempo, porque essas ocasiões eram raras (quem tem filho pequeno sabe do que se trata). Quando acordaram de vez, a chuva fina dava alguma vida às árvores do lado de fora, enquanto ainda haviam folhas que aguardavam a dormência “outono-invernal”. O dia passou preguiçoso: viram filmes, conversaram, namoraram e, no final da tarde, lá veio o avô com Yasmin. 

- Então? Ela deu muito trabalho? 
- Nada, Dona Mônica. - disse Alcione – ela foi o sucesso lá da cafeteria. 

O avô, todo orgulhoso, contou que deu uma arrumada por lá, para que a menina tivesse diversão. Montou um cantinho com brinquedos, coisas coloridas, umas sucatas do tipo “chocalho de garrafinha pet com arroz dentro” e isso atraiu alguns outros avós que levaram netinhos para brincar também, já que a notícia, dessa novidade, andou pelas redes sociais em velocidade de “dobra”. Crianças felizes, avós mais ainda, todos se divertiram e ninguém reclamou de nada. 

Mônica abraçou o pai. Lembrou dos anos de alienação parental, pensou no que perdeu, mas agora iria recuperando aos poucos. Ela também estava feliz e até muito emocionada. 

Enquanto Leo dava banho em Yasmin, ela foi até o computador e escreveu um comentário na tal reportagem: 

“O que eu acho é que os avós fazem parte. Claro que eles se metem e dão muitos palpites, mas eles são pais da gente e merecem nosso respeito e não processos na justiça. Tenho muita pena dessa filha que processa os pais.” 

E, lá fora. a chuva fina continuava a cair...  


Boa Noite! Eu sou o Narrador.

domingo, 16 de março de 2014

Pois é

Aproveitando um final de semana de folga, de seu trabalho na pousada do sogro, Leo e Mônica partiram para o continente, levando Yasmin, é claro. A pequena, agora praticamente com 1 ano de idade, adorou o passeio na barca, curtindo o vento no rosto e os sorrisos dos outros viajantes, que brincavam com ela quando passavam. Muito simpática, retribuía os sorrisos sem deixar de prestar atenção em tudo à sua volta. 

O passeio levou o dia todo. Visitaram os avós, mas recusaram os convites para o almoço (o que gerou mais algumas “chantagens emocionais” da mãe da Mônica), pois o objetivo era visitar os padrinhos da menina que seriam pais em breve. De volta pra casa, Leo colocou Yasmin para dormir (depois de todas aquelas funções tipo banho, janta e tudo o mais), enquanto Mônica remexia em algumas caixas de papelão. 

- Achei! 
- ?? 
- Lembra quando você me deu isso? A gente nem namorava ainda. 
- Nossa, você guardou. Legal, mas por que procurou isso agora? 
- Vou fazer algo tipo cápsula do tempo, para mostrar pra Yasmin quando ela crescer. Vou aproveitar essa caixa de madeira, que a Bia me deu, justamente para isso. E esse poema vai ser o primeiro. Depois vou encontrando outras coisas. 

Ele pensa e ela fala, 
Ela escreve e ele ri, 
Ele canta e ela recita, 
Ele fala e ela pensa... 

E podem ser bons amigos, 
Talvez muito mais que isso,
Passando pela fase do “eu te amo” 
Para amar de outra forma, muito e muito mais além... 

Ah! Mas por que ela assim pensa, 
Se pensasse o que ele pensa, 
Ficaria dito a perfeição 
Pois pensamento viraria sentimento... 

Do sentimento à emoção 
Do que não consegue dizer, 
Já que mente a cada passo 
Quando evita falar deste seu bem querer... 

Falasse da delicadeza e do carinho, 
Da dedicação que tem ao amor que sente, 
Talvez este último não o fosse tão injusto 
E o deixasse bem longe da solidão... 

E se ela não pensasse e somente tivesse certeza 
De que o que pensa que não daria certo 
Seria o caminho mais claro e seguro 
Para o enfim final feliz daquilo que ainda não terminou...(?) 

Leo sorriu, lembrando o trabalho que deu para escrever o poema e, depois, desenhar um coração com os versos. Valeu muito a pena, com certeza, porque Mônica amou a ideia e eles começaram a namorar. A inspiração?

  


Boa Noite! Eu sou o Narrador.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

O Primeiro Dia dos Pais

Vocês lembram do Leo e da Mônica, aquele casal que, no ano passado, participaram do “Conto do Dias dos Pais”? Na época eram jovens formandos, ela em Letras e ele em Turismo, e que, oito meses depois, em abril, tiveram Yasmin. 

A gravidez gerou bons frutos: além da filha (claro), Mônica fez as pazes com o pai que ofereceu o gerenciamento de sua pousada para Leo. O estabelecimento ficava numa dessas ilhas (que na verdade são bairros) com uma infraestrutura básica, onde as pessoas andam a pé, de bicicleta ou charrete de aluguel e veículos automotivos são exclusivos dos serviços públicos (salvo os barcos, evidentemente). O casal também ganhou uma casa, próxima ao trabalho, que era modesta, mas tinha um jardim com várias flores e uma cerca viva de jasmins. Aliás foi esta a origem do nome da menina. 

Bom... não pense o leitor que morar em ilha paradisíaca não traz alguns problemas. No dia do parto caiu uma tempestade, as comunicações com o continente foram interrompidas, assim como qualquer tipo de transporte (talvez um submarino resolvesse...). Mônica começou a sentir as contrações perto da hora do almoço, mas “segurou a onda” (já que não tinha outro jeito) até que, lá pela meia noite... 

- Leo, acorde! A bolsa rompeu. 
- Fique tranquila, Mônica! A tempestade já parou, pegaremos a barca das quatro horas e dará tempo de chegarmos ao hospital. A médica falou que primeiro filho demora. 
- Demora o caralho porra nenhuma nada! Já estou com uma dor filha da puta enorme há horas e agora acho que nasce!!

Nessa descrição, vou pular os detalhes mórbidos da confusão, como o banho de lama que Leo tomou ao tentar livrar a ambulância de um atoleiro, a cara de espanto da acadêmica bolsista, que estava de plantão no único posto de atendimento médico da ilha, ao chegar na casa e ver que Alcione (a cozinheira da pousada que também era parteira nas horas vagas) tinha resolvido a situação (“dona Mônica fala muito palavrão, né seu Leo”) e o “piti” homérico da mãe da Mônica, quando soube do ocorrido (naturalmente criticando o ex-marido, mas isso foi devidamente relevado, já que era costumeiro). Tudo isso, hoje, é motivo de incontáveis histórias que foram registradas num diário, para quando Yasmin estiver mais velha. 

Após o almoço de domingo, onde estavam os pais de Leo, trazidos por seu sogro, e os padrinhos, Eduardo e Bia, Mônica saiu um pouco para amamentar e Bia foi atrás. Já que, para Leo, era o seu primeiro almoço de dia dos pais (como o próprio), Yasmin usava uma camiseta com os dizeres “Meu Pai, Meu Herói” (isso não precisa muita explicação). 

- Como Leo está se saindo, Mônica? 
- Melhor que a encomenda! - ela riu. 
- Espero que Eduardo seja assim também, bem diferente do que aquele texto do “pai participativo”
- Quer saber, Bia? Que se fodam danem esses pseudointelectualóides que escrevem essas coisas. Pai é pai, mãe é mãe, são pra sempre, cada um faz a sua parte e os filhos que entendam isso. O amor será incondicional independente do que eles possam pensar. Eu aprendi isso e espero que todos os filhos por ai aprendam também! 

E a noite caiu lá naquela ilha, onde tudo é tranquilidade... 

  Boa Tarde! Eu sou o Narrador.

domingo, 12 de agosto de 2012

Conto do Dia dos Pais

Leo e Mônica começaram a namorar ainda no segundo grau e conseguiram levar sua relação até hoje, quando estão no final da faculdade (não fazem o mesmo curso, mas algumas matérias são comuns e eles tem aulas juntos). 

Nesse dia, a professora de “relações humanas”, que já discutira relação entre mãe e filhos, irmãos, avós e todos os membros da família, resolveu discutir um texto, encontrado na Internet, que falava sobre o “pai participativo”, aproveitando a proximidade do Dia dos Pais. Era um texto do tipo “morde e assopra”, onde as ideias ficaram diluídas e as opiniões da classe ficaram muito divididas. 

Também, pudera: a começar pelo casal mesmo, onde Leo morava com os pais, sem maiores problemas, e Mônica morava só com a mãe e a irmã, pois os pais eram separados. Sua relação com o pai, depois da separação, foi complicada, eles brigaram sem maiores motivos, sua mãe o acusou de inúmeras inverdades e ela assim cresceu, como sua irmã, ambas “órfãs de pai vivo” (e ele "órfão" de suas filhas, o que lamenta muito com certeza).

- Mas como assim? Que absurdo! Leia isso, Mônica! Quebra galho? Vai se fuder!
"... é importante que o casal tenha em mente a diferença entre "dar uma ajuda" e "dividir". Se o pai troca uma ou outra fralda durante a noite ou leva as crianças para a escola quando a mãe não pode, ele quebra um galho, dá uma mão.” 

- É isso mesmo! É só fingimento para parecer que é legal. E o pior é que as pessoas acham isso o máximo, mas é só porque não tem outro jeito. 

A discussão dos dois ficou acalorada e quase que a relação terminou ali mesmo, por conta de um texto. Ainda bem que ele era paciente e soube relevar. Lembrou das coisas que ela contara sobre o pai e entendeu que ela não levava nada em consideração. Parece que esquecera de tudo de bom que seu pai fizera e até do dia que ela mentiu sobre ter feito um trabalho e ele foi ao colégio ficar do lado dela, na frente da professora e da diretora. 

Outros alunos emitiram suas opiniões. Boa parte achava que o pai somente tem que "estar lá", para qualquer necessidade, algo do tipo “plano B”, mas o “osso” do dia a dia era da mãe mesmo. 

Indiscutível a função “motorista”: para as festinhas, o pai era a solução (“Imagina! Chegar com a mãe, aos quinze anos, na porta de uma festa era mico na certa” - comentou um garoto). 

No meio da discussão, um deles perguntou por que seu pai sentou do lado do “Réu” na hora da separação; e outro perguntou por que a guarda invariavelmente fica com a mãe. Essas perguntas ficaram sem resposta e o silêncio dominou o ambiente quando veio a piadinha inconveniente, daquele aluno babaca, que soltou o tal do “e se não pagar a pensão dá cadeia certa”. 

A professora, sentindo que perdera completamente o controle da situação, já que a discussão descambara para terrenos pantanosos, torcia para que tocasse o sinal de fim da aula, o que aconteceu a seguir (foram quarenta minutos intermináveis!). 

Lá fora, abraçados, Mônica seguia em silêncio. Uma lágrima, misto de raiva com desilusão, ameaçou cair dos seus olhos (muitas lembranças passaram na sua mente); mas ela contornou a situação quando perguntou para Leo: 

- E você? Vai ser participativo ou só vai querer jogar bola e tomar cerveja, enquanto eu esquento no fogão e esfrio no tanque (ela riu, disfarçando)? 
- Vou ser igual ao meu pai. Ele é legal! 
- Então veremos isso daqui a oito meses! 
- !!!!!!!!!!!!!!!!! 


Um bom dia especial para meu pai! Eu sou o Narrador.

N.N.: Essa história tem uma continuação. Clique aqui para conferir!