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quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Mosquitos do Verão

Trabalhar num pronto-socorro requer habilidade, conhecimento e também um tanto de experiência. Algumas coisas não estão nos livros, não são evidências científicas e só aqueles que labutam nesses locais é que sabem o que acontece. 

Ainda acadêmico, aquele jovem médico que trabalhou no Réveillon 2012/2013, fez seu primeiro plantão num PS municipal, de uma cidade litorânea, exatamente no dia primeiro de janeiro de um ano qualquer. Como pouco sabia, procurou alguma informação com um colega mais velho que logo deu as dicas: 

- De manhã não acontece nada porque os queimados pelos fogos, os alcoolizados e os com os pés cortados já chegaram de madrugada; o restante do povo tá dormindo. De tarde recomeça, mas com as quedas, principalmente da laje. 

O jovem aluno não entendeu grandes coisas ("como assim, queda da laje?"). Só que não tardou muito para o entendimento, já que o primeiro traumatismo de cabeça que ele atendeu foi de uma criança que estava numa laje com um tio que "tomara todas" e que resolveu soltar pipa. Caíram os dois. Para a sorte da criança, o tio amorteceu sua queda, mas ele foi parar na neurocirurgia. Na sequência de pacientes veio insolação, queimaduras solares diversas, mais alguns alcoolizados, mas, de repente, surgiu uma moça com o as pálpebras inchadas e rosto meio desfigurado, sugerindo até algum tipo de agressão. 

- Como é o seu nome? - perguntou o acadêmico. 
- Ana Paula – respondeu a moça, algo rouca. 
- O que foi que aconteceu? 
- Foi assim doutor... 

Ela contou que alugara uma casa na praia e que ficara maravilhada com o lugar. Apesar do calor, havia uma boa brisa, a casa possuía ventilador de teto e era muito aconchegante. Como o local era tranquilo, ela deixava as portas e janelas abertas o tempo todo, inclusive à noite. Só que ela não foi avisada que, lá pelas dezessete horas (e até às vinte horas, mais ou menos), era conveniente fechar tudo, pois chovia, surgiam as poças de água e os mosquitos apareciam, atacando de forma implacável. 

- Mas a senhora não usou nada para espantar os mosquitos? Não tinha um espiral, um espanta mosquito elétrico ou, então, um repelente de passar no corpo?
- Doutor! Claro que sim! Mas esses mosquitos eram diferentes de tudo que eu já tinha visto na vida. Como nada resolvia, achei uma garrafa de tequila e mandei pra dentro.
- Mas a senhora não me aparece alcoolizada, só está com uma reação alérgica. 
- Pois é, doutor. Com a tequila no meu sangue, os bichos enlouqueceram de vez. Alguns aproveitaram o ventilador de teto para voar como se fosse numa asa delta; alguns ficaram reunidos em volta do espiral como se fumassem narguilé. Em dado momento, resolvi abordar um casal de mosquitos, em total situação libidinosa, que estava em cima daquele lance de pastilha que a gente coloca na tomada. Eles até foram legais, pediram desculpas, mas é que pensaram que ali fosse a sauna. A coisa ficou tão esquisita que eles saíram de lá, tomaram banho e usaram o repelente de corpo como desodorante em aerossol. Depois foram até a raquete elétrica para deixar os cabelos em pé. 

Achando que tudo aquilo era uma pegadinha dos seus colegas mais velhos, passou o caso para um médico mais antigo e achou melhor procurar a sala de sutura, onde a coisa deveria ser mais amena. Devidamente medicada, algum tempo depois, Ana Paula acordou na maca do PS e, ao abrir os olhos (finalmente desinchados) deu de cara com um mosquito em cima do seu nariz que reclamou: 

- Acorda logo, Natasha! Volta pra casa que eu perdi a festa! Hoje vê se toma absinto!



- Natasha é o caralho! Meu nome é Ana Paula! 

Nesse momento ela levantou, arrancou o soro, pegou a maca como se fosse um pedaço de madeira e saiu dando “macada” em tudo que é canto, na tentativa, desesperada, de “detonar” o mosquito safado. Contida por vinte e cinco seguranças, foi sedada e internada na ala psiquiátrica do hospital, até que foi resgatada pela amiga gostosa de sempre. 

- Porra, Ana Paula! Dessa vez você superou todas as outras! Que foda! Vê se toma jeito e, da próxima vez, consulta um site desses de previsão do tempo que até lá eles falam de mosquitos.  


Boa Noite! Eu sou o Narrador.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

O Dia Que Mataram o Narrador

”Era uma vez uma linda donzela, que vivia na favela do Atirado. Ela sonhava em encontrar seu "Belo Encantado", mas não sabia muito bem para qual Bangu ele havia sido transferido. Até que um dia... Aaahhhhhhhh...
 - Ei, Narrador. Narrador acorda! Não faz isso comigo, Narrador! Ah, não acredito! Quando finalmente raiou o tão esperado “até que um dia...” o Narrador me bate as botas.” 

- Calma, Dona Natasha! 
- Ana Paula, por favor. 
- OK, Dona Ana Paula. O que o Narrador fazia na sua casa lá na favela do Atirado? 

Há alguns anos atrás, cansada de ser sacaneada pelo Narrador e seus textos, Ana Paula não resistiu e sequestrou o sujeito. Submetido à torturantes sessões de música sertaneja, ele finalmente resolveu quebrar o galho e tentou um texto mais bacaninha e essa história foi contada em outro blog, por outro escritor. O grande problema, que resultou na sequência dos eventos relatados, é que ela não gostou do nome do escolhido, já que o lance dela era sertanejo universitário e não pagode. Além disso, de donzela ela não tinha era nada. 

- Isso já é mais difícil de explicar, delegado. Dá pra pular essa parte? 
- Hum... por enquanto, talvez. Nesse momento entraram os policiais e aí o que aconteceu? 

Ana Paula seguiu seu relato, tentando resumir a situação.

- Foi uma confusão danada. Mandaram todo mundo para o chão, apesar que “todo mundo” era só eu mesma, já que o Narrador estava lá, jogado no assoalho (imundo) do barraco. Com muita discussão, resolveram colocar o corpo do pobre coitado na mala de um fusca, pois falaram que bastaria "usar uma chave sextavada e tirar o pedal que caberia sem problemas". O que realmente aconteceu, é que quem escreveu o texto original, ficou sem ideia e resolveu mudar o rumo da prosa. 
- Como assim, Dona Natas... digo... Ana Paula? Rumo da prosa? 
- Sim! Na versão original!
- ??????

“- Narrador! Você não morreu?! 
- Na verdade sim, mas esse escritorzinho mixuruca não estava encontrando um jeito de continuar a história sem mim! - disse o Narrador, em claro ato de insubordinação. 
- Que ótimo. Eu também não vivo sem você. Desde que eu nasci, você vive me dizendo o que fiz, faço ou farei! 
- É para isso que servem os narradores de contos de fadas!” 

- Mas a senhora não falou que ele vivia te fud... digo... escrevendo contos depreciando sua moral? (uma gargalhada enorme ecoou no salão, onde vários outros policiais conversavam). Cala a boca, piazada! - ele gritou - Pode continuar, Dona Ana Paula. - disse o delegado, pouco entendendo do que ela estava contando (da mesma forma que o leitor).

“Então, num súbito ato de bondade, o escritor (do outro blog) coloca um portal de outra dimensão nessa história, para o qual Ana Paula e o Narrador correram freneticamente, sob o olhar catatônico dos policiais, quando o improvável aconteceu: 

- Narrador, o que é isso? Que coisa esquisita é essa? Parece que eu estou surfando e... 

Então ela se deu conta. Esforçando-se para compreender aquela situação muito além da própria imaginação, viu-se diante do improvável.” 

- Dona Natasha! Para de enrolar! 
- ANA PAULA! MEU NOME É ANA PAULA, PORRA! (outra gargalhada ecoou, agora vindo das celas, onde vários presos observavam a movimentação). 

“ Ela percebeu que estava presa no Google! Que?! No Google, o portal de internet. 

- Não foi isso que eu pedi! Eu, o Narrador, queria um portal de outra dimensão, tipo daqueles que você entra no armário e vai parar em Nárnia! 
 - Narrador, Narrador... Olha só o que sua insubordinação nos causou, Narrador! 

No início, tudo era esquisito. Visitaram o Orkut (na época não existia o Facebook), pulando de perfil em perfil, machucando o rosto dos usuários. Depois foram parar no You Tube, copiaram e descolaram uma pipoquinha do Google Imagens e viajaram o mundo pelo Google Earth, quando, então, cansaram. 

- Ai, Narrador. Estou cansada. Meus pés estão me matando. Minha cabeça está doendo. Essa história não poderia ter sido mais tradicional? 
- A culpa não é minha. Reclama pro outro que está escrevendo essa sandice! 

Decidiram voltar. Clicaram em “sair” no Orkut, deslogaram do You Tube, abriram o Google Earth, digitaram Rio de Janeiro e pularam sobre a favela do Atirado.” 

Só que caíram mesmo foi em Guarapuava, justo na delegacia 

“- Que palavreado indigno para uma donzela. Vai pro Rio de Janeiro, lá para Bangu! 

O Narrador foi poupado, pela sua idade avançada. 

- Deixa esse velhinho gagá aí. 

A linda donzela passou 15 anos presa por desacato à autoridade, tentativa de fuga ultradimensional e um homicídio. 

- Homicídio? - perguntou o Narrador, insubordinando-se novamente. – Mas eu não morri. 

Em Bangu ela encontrou seu Belo Encantado, que morreu de amores por ela – eis o real homicídio. Houve outro crime, como uma música dele para ela, que fala algo sobre “mel, sua boca tem um céu, e com esse hálito não dá, mas eu queria te beijar”

- Narrador estúpido, “sua boca tem um mel e melhor sabor não há, que loucura te beijar”. 
- Foi o outro que escreveu isso, Natasha! 
- ANA PAULA, CARALHO! 

Por fim, segundo o escritor do texto original, Narrador agradeceu-a por gravar esta música-chiclete em sua memória e, lamentando-se por isso, informou que ela e seu Belo Encantado viveram felizes para sempre.

Achou o texto esquisito? Sem dúvida o original é muito mais divertido e você pode conferir em “Klaustrofobias”, clicando aqui. Há muito tempo eu queria fazer essa versão e hoje saiu. Ah! Como isso é uma versão livre, parte copiada e colada (entre aspas) e não autorizada, Ana Paula não está presa e vai aparecer num outro texto, mais tradicional, por aqui mesmo! Isso se eu não for processado pelo dono do original!  

 
Boa Noite! Eu sou o Narrador.

sábado, 1 de novembro de 2014

O Feitiço do Dia das Bruxas

Uma vez por ano, ao menos, elas se encontram em algum lugar desses que nunca aconteceram, mas sempre na mesma noite. 

“Dia das Bruxas e seu feitiço irá te tomar; não deveria ter deixado você me conquistar completamente, e agora não consigo acordar desse sonho que toda noite me persegue.”

Tempestade, raios e trovões... A última coisa que se lembrava é que fora à feira comprar uma moranga para o almoço de sábado, onde faria o camarão e, talvez, um doce com coco. Quando acordou, viu aquela sua amiga bonita, longos cabelos pretos, muito vistosa, dormindo seminua do seu lado. Já prevendo algum desastre ocorrido e esquecido, cutucou a garota que bocejou e comentou:

- Nossa! Noite boa! Aproveitamos né? Caramba... tenho que ir pra loja! “Xau” e beijo! 

A tal amiga pulou da cama, colocou um vestido preto curtíssimo, tomara que caia, estilizando uma veste de bruxa. O chapéu ela levou na mão ("A vassoura você guarda pra mim que eu pego depois, tá?"). Cada vez entendendo menos, Ana Paula levantou, não sem antes conferir se não havia nenhuma pecinha de lego (maligna) no chão, conferiu se havia luz para um bom banho e não esqueceu a toalha (agora ela anda bem prevenida, para evitar incidentes). Saiu do chuveiro, coçou o saco e, instintivamente foi fazer a barba. 

- Pera! Que porra é essa? Saco? Barba? 

Um grito ecoou pelo banheiro quando ela olhou no espelho e viu que virara homem; não um homem qualquer e sim aquele seu antigo amor, que desdenhara e que sua amiga ficara diversas vezes. 

- Pera (de novo)! Eu comi trepei transei dormi com a minha amiga! Não! Ele dormiu! Não... ai que merda foda confusão! Só que eu sou ele! 

Quando acalmou, concluiu que não estava em casa e sim na casa dele, no corpo dele, só que era ela que pensava. Por outro lado, ela sabia tudo sobre ele, principalmente a senha da rede social, onde não eram mais amigos e, portanto, muita coisa ela não conseguia fuçar. Imediatamente abriu o computador, foi lá para ver o que rolava e ficar atualizada. Havia uma mensagem e começou por ela: 

“Oie! passando pra dizer que sinto saudades de você e as vezes tenho vontade enorme de ligar pra contar coisas que me acontecem, porque só você me entendia; lembro de tudo de bom que você fez por mim e sinto falta dos nossos tempos. Eu sei também que você não vai querer responder, mas to escrevendo pra dizer que ainda gosto de você e nunca vou te esquecer porque você é muito especial para mim e que sinto de verdade muita saudade de você! Bjos de quem TE ADORA do tamanho do universo para todo sempre...." 

- Filha da puta Vadia Piranha Quem é essa sirigaita que escreveu essas coisas pra ele? Nossa! Eu que escrevi... não... ele que escreveu... pera... então ele está no meu corpo e aí ele escreveu... então ele quer se aproximar de novo e aproveitou que ele sou eu. Que confuso! Ah! Vou dizer que to muito afim e coisa e tal... quer dizer...ele vai dizer... Ah! Isso tudo tá muito foda doido; mas pera... ele não faria isso de cara não e eu sou ele. 

Ana Paula pensou, pensou e resolver mandar um vídeo do Youtube, com Sandy e Junior cantando “Desperdiçou” junto com a Ivete Sangalo. No que ele, melhor, ela... (essa narrativa é que está foda de fazer, mas o leitor que se esforce para entender), fingiu não entender e continuou puxando assunto. 

- O que ele faria agora? Seria educado? Talvez... 

Deu algumas respostas polidas, ele/ela (tá confuso, eu sei, mas vê aí se vocês entendem), insistiu na paquera. 

- Hum... acho que, como estou no corpo dele, vou mandar um vídeo de amor e aí resolvo esse meu problema de vez. 

Ana Paula, incorporada no seu antigo amor (às vezes ela vira Natasha também, daí já estar acostumada), procurou, procurou, mas o instinto masculino do cara falou mais alto e detonou um vídeo do Jorge Aragão , cantando "Você abusou", que ela pensou que ia dar boa coisa, mas quando viu o vídeo já tinha ido e aí não tinha jeito e aí caralho, fudeu tudo danou-se! 

Uma ventania tomou conta do escritório, diversas abóboras voaram em sua direção e bateram na sua cabeça. Quando acordou, tudo voltara ao normal e ela não tinha mais saco e nem barba. Do banheiro veio a voz do companheiro que escolhera:

- Amor! Onde está meu aparelho de barbear? 

E naquele lugar que falei mais cedo, duas irmãs e uma vampirinha comemoravam os efeitos do feitiço desse ano, enquanto uma abóbora gargalhava por ai...


Bom Dia! Eu sou o Narrador.

domingo, 7 de setembro de 2014

O Décimo Primeiro Andar

A visão do hotel parcialmente isolado por aquelas faixas amarelas, comuns nos seriados policiais da televisão, além dos carros de polícia e do SAMU, todos com o giroflex ligado, a fizeram pensar (“Que porra é essa? Acho que deu merda por aqui. Nossa! Alguma coisa aconteceu! O que será?”). 

Algumas semanas antes, depois de uma discussão doméstica por conta do sumiço de seu gato (dizem que foi abduzido pelo “homem do saco”, mas acredita-se que ele foi internado numa clínica psiquiátrica, depois do susto que ele levou há alguns textos atrás), ela colocou umas roupas (e algumas mentiras) numa bolsa, pegou um velho Uno Mille, primeira geração, que apodrecia no quintal de casa, engrenou uma segunda, soltou o freio de mão na ladeira, misteriosamente ele pegou, e ela foi embora para o interior de São Paulo, lá pros lados de Sorocaba. Apesar de pouco letrada, fizera um curso de decoração de bolachas (alimento mais conhecida como biscoito, apesar de serem coisas diferentes) e achou que tal conhecimento poderia abrir alguma alternativa de trabalho. 

Realmente isso ajudou porque havia uma padaria precisando de um confeiteiro, pois o atual, bem idoso (parecia que tinha uns duzentos anos), estava prestes a se aposentar. Como ela não tinha muita experiência, faria um curso rápido, na capital, onde o velhinho seria homenageado. 

Partiram os dois: no hotel ele ficou no oitavo e ela no décimo primeiro andar. O primeiro dia foi cansativo, mas bem proveitoso. Ao chegar de volta, tomou um banho, jantou e logo foi dormir. Combinara de encontrar o confeiteiro, para irem juntos, pela manhã, mas acordou tarde e assustada (a bateria do celular descarregou e o despertador não tocou), se arrumando correndo, mas ainda deu tempo de fazer uma “selfie” sem maquiagem (aquela amiga gostosona a desafiou a colocar uma foto assim, na rede social) e saiu batendo as portas, meio estabanada. Estranhou que o velhinho não estivesse no curso e, na volta, o circo estava armado, como contei mais acima. 

Como o isolamento era parcial, de posse do cartão do hotel ela pode entrar. Teve a impressão que os funcionários a apontavam e cochichavam, mas subiu para seu quarto sem se incomodar com isso. 

 - Olá! Sou a detetive Benson da UVE¹! A senhora é a dona Natasha? 
(“Caralho... Era só o que me faltava”) - Meu nome é Ana Paula, por favor. 
- Os recepcionistas me informaram que esse era seu nome e que a senhora conhecia o morto.
(“Como assim, morto?”) - Pera! Você está querendo me dizer que o confeiteiro morreu? Morreu de que? E por que meu quarto está isolado? 
- Ele morreu aqui e a senhora foi a última pessoa a vê-lo vivo. 

Ana Paula ficou sem palavras, enquanto uma equipe do CSI² colhia provas e mandava que abrisse a boca para o DNA. Levada para a delegacia local, foi deixada isolada em uma sala, até que apareceu um senhor baixo e gordinho. 

- Boa tarde. Meu nome é James Brass e sou capitão aqui, mas pode me chamar de Jim. 

Ela estranhou a intimidade e continuou quieta. (“Isso só pode ser coisa daquelas gurias bruxas, só pode”) 

- A senhora será liberada. O confeiteiro morreu de infarto. Uma foto no seu celular mostra o susto que ele levou. (“Susto? Como assim?”) 

Recebeu seus pertences e foi conferir a tal foto. Pelo que entendeu, já que estava atrasada, o velhinho pediu para a camareira abrir a porta, para ver o que acontecera, enquanto ela ainda estava no banheiro. Sentado na cama, ele viu, pelo espelho, seu rosto sem “make”, sem filtro e sem nada e acabou infartando, não sem antes virar um “photobomb” que “viralizou” na Internet. Depois disso, ela não voltou para a padaria e ainda não se sabe o que aconteceu com ela.  


Bom Dia! Eu sou o Narrador.  

¹ “UVE ou “SVU” é a sigla para Unidade de Vítimas Especiais, um “spin off” do original “Law and Order”, série da TV paga, e a detetive Benson é a personagem principal; ² “CSI” significa “Crime Scene Investigation”, outra série televisiva, onde aparece o capitão Brass.

domingo, 27 de julho de 2014

Se beber, não cruze gatos!

A enteada sabia que ela gostava de gatos e a ideia do cruzamento de sua gata, que estava no cio, com algum, dos diversos de sua da madrasta, era muito boa, mas isso talvez não fora uma boa pedida. 

Deixou o cestinho na sala, agradeceu e foi embora, quando então começou a saga. Inicialmente a felina parecia dócil e um “ninho de amor” foi montado num pequeno banheiro nos fundos da casa, onde foi colocado o casal. Foi o que bastou para começar o tal barulho infernal de miados, gritos e coisas caindo no chão. Ana Paula achou melhor verificar e encontrou o seu gato totalmente acuado num canto e a gata da enteada acomodada na janela do banheiro, que foi devidamente trancada, previamente, com um arame, para que ela não fugisse. Apavorado, o pobre gatinho rejeitado voou pela porta do banheiro e foi se esconder em algum lugar que até agora ninguém descobriu. 

- Puta que o pariu Vixe! Isso não é uma gata! É um monstro! 

Parecendo que entendera o comentário, a gata pulou na direção de Ana Paula, que imediatamente fechou a porta, para não ser atingida pelas garras da felina. Novamente o barulho começou, mas foi acrescido de outro, do lado de fora. Observando da janela, a cantoria de vários gatos, de todos os tipos e até alguns de desenho animado, atraídos pelo barulho inicial, tornou a situação insustentável. 

Resolveu ligar para o veterinário que sugeriu um sedativo, mas, como não tinha receita, isso não rolou. Pensou um pouco e lembrou que ainda tinha um pouco de absinto, o mesmo que tomara uma vez, lá no passado não tão distante assim, e que tinha uns efeitos sedativos. Colocou um pouco numa taça, chegou perto da gata, derramou numa tigela e, para convencê-la, tomou uns golinhos, para mostrar que era bom. 

Isso tudo foi a última coisa que ela lembrou quando acordou na sala, vestindo uma mini saia de borracha, um salto quinze e uma frente única dourada, enquanto a gata dormia desmaiada a seu lado. 

- Meu bem! Tem um rato falante, aqui na porta, dizendo que veio entregar umas fotos. - disse o marido que entrou e foi direto para o banheiro, por onde esteve a gata. 

(Rato? Que porra é isso essa? - ela pensou) 

Foi atender (que jeito).

- Dona Natasha! Tirei umas fotos da nossa festa de ontem! A senhora estava o máximo! 
- Natasha é o caralho Ana Paula, por favor! E ratos não falam! Some daqui antes que eu te transforme em café da manhã para meus gatos. 

Quando viu as fotos, a lembrança veio na hora. Novamente o absinto, como da outra vez, teve um efeito muito doido, tanto nela quanto na gata. 

- Ei amor! O que meu alicate está fazendo aqui perto da janela do banheiro? 

 
Boa Noite! Eu sou o Narrador.

sábado, 14 de junho de 2014

Junto e Misturado

A visão do céu azul, do caminhão tanque abastecendo o posto de gasolina em frente, que estava sem combustível por conta das estradas interditadas, e o movimento do relógio da água, deu a esperança de que as coisas começam a voltar aos seus lugares. Melhor ainda quando o comunicado do Corpo de Bombeiros relatou que o nível do rio cedeu dois centímetros, mesmo que a inundação ainda persista praticamente inalterada. Pequenos sinais de que o problema caminha para seu término. 

Atingido indiretamente pelas enchentes, conclui que, este ano, o inferno astral veio com toda a fúria, mas temos que ser do grupo "copo meio cheio" ou, então, desistir. Claro que vários foram atingidos diretamente, perdendo suas casas e pertences, mas saíram vivos e essa dádiva todos agradecemos em nossas orações, sem esquecer de elogiar o trabalho da Defesa Civil junto com os Bombeiros, Polícia Militar e todos os demais voluntários que trabalham, incessantemente, para minimizar o efeitos da enxurrada. 

Como a vida continua, resolvi escrever alguma coisa relacionada a outros temas da semana, mas aí veio um problema: muitos eventos numa semana só, ou seja, Copa do Mundo começando no Dia dos Namorados, que teve lua cheia e que foi na véspera de uma Sexta-Feira 13, classicamente um dia dedicado aos contos de terror. Depois de muito pensar, vamos ver o que saiu. 

Ana Paula ficou sozinha em casa. Como todos viajaram e não conseguiram voltar, com as estradas interrompidas, aceitou o convite daquele casal tão simpático que morava no final da rua, para assistir a abertura da Copa do Mundo pela televisão. O jogo, propriamente dito, não interessava muito, mas a televisão deles era daquelas de cinquenta e tantas polegadas e o lanche estava ótimo. No final do primeiro tempo ela pediu licença, agradeceu e preferiu voltar pra casa, pois uma certa melancolia relacionada ao dia fez com que o recolhimento fosse uma boa opção. Em casa, ligou sua própria televisão e resolveu assistir a "Galinha Pintadinha", o que a fez lembrar de alguma coisa da festa de abertura. 

No meio da barulheira das comemorações pela vitória da seleção brasileira, alguns gritos, gemidos e até uivos meio atípicos eram ouvidos ao longe, o que gerou um pensamento malicioso: 

- Esse casal está é comemorando o dia! Quem diria! - ela riu. 

No dia seguinte, novo convite, só que, dessa vez, para jantar - “Nossa! Que casal simpático!” -  e ela aceitou. Mesa posta, luz de velas e, de repente, o casal abre as cortinas, o luar invade o ambiente, pelos, dentes e garras surgem em ambos, que começam a rir e gritar para ela: 

- Nataaashaaaa!! 

Aos gritos, Ana Paula começou a correr pela sala, já entendendo que ELA seria o jantar do casal de lobisomens. 

- Nataaashaaa!! 

- Nataaashaaa!! Acorda porra caralho guria! 

Levando vários tapas na cara, fora a jarra d'agua derramada em cima de seu figurino “blusa e shortinho” da seleção brasileira, ela acordou com aquele natural “gosto de guarda-chuva” na boca e uma puta enorme dor de cabeça. 

- Natasha não! Ana Paula, caralho por favor! 
- Ah! Nem vem né! Resolveu afogar as mágoas no jogo do Brasil e ainda quer passar de santinha? 
- Onde eu estou? Você ficou comigo o tempo todo não foi? 
- Melhor nem querer saber. Vamos embora antes que a merda confusão aumente. 

Salva pela velha amiga, aquela bonitona, Ana Paula chegou em casa, tomou um banho, queimou as roupas da festa, para eliminar qualquer vestígio da farra, e depois trancou a casa toda, por via das dúvidas. (“Quer saber? Sei lá...”)


- Para quem você está mandando este e-mail, Melinda? - perguntou o Guri.
- É para Adrielle, contando que eu repeti a dose de 2012.

Boa Noite! Eu sou o Narrador!

N.N: Agradeço, mais uma vez, ao Guilherme, pela tirinha exclusiva. Visitem o Porco Espírito.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

O Conto do Fogão

Na semana passada, ela esquecera um pouco da vida, viajou até sua cidade natal, onde moram seus pais, e era feriado, havendo uma grande festa comemorativa. Apesar de tentar passar despercebida, encontrou sua antiga amiga (aquela gostosona) que, evidentemente, não deixou de contar suas estripulias com o namorado.

Na volta para casa, uma bagunça danada, já que suas enteadas nada fizeram e o marido preferiu não desagradar as filhas.

- Então, a festa foi boa? - ele perguntou, com um sorrisinho meio amarelado.
- ("Teu cu!" – ela pensou) Claro meu bem! - ela evitou encrenca.

Nem tomou banho e partiu para a arrumação. Muita louça, muita lama dentro de casa ("o que custava tirarem a porra do sapato antes de entrar") e essa foi a parte fácil. O maior problema ficou com a lavagem de roupa, já que a umidade estava alta devido à chuva e ao frio polar que se abateu sobre a região. Preferiu não arriscar e selecionou apenas as roupas de baixo que poderia secar no fogão a lenha, já que havia um mini varal acima dele, justamente para isso. Para evitar o cheiro característico de fuligem, o grande lance era acender o fogão e só colocar as roupas um bom tempo depois.

Decidida, aproveitou que as gurias ainda estavam no trabalho e o marido encontrava-se em local indeterminado, mas fora de casa, verificou se, ao menos, a lenha que comprara com antecedência estava seca e iniciou os trabalhos no fogão. A compra foi boa, pois os preços estavam mais em conta e ainda ganhou um quilo de lascas de nó de pinho, como cortesia. Juntou uns gravetos e um pouco de jornal, acendeu essa base e colocou uma lasquinha bem pequena (sim, tem que ser algo desse tamanho porque o nó de pinho tem um poder calorífico absurdamente maior que a lenha comum e, se você usar muito, num fogão pequeno, a coisa pode esquentar de verdade), houve alguma fuligem, mas o fogão foi esquentando aos poucos. Aproveitou e colocou água na chaleira, separou a garrafa térmica, colocou chimarrão na cuia e foi tomar um banho, não sem antes já colocar algumas peças para secar e conferir se o boiler deixara a água do banho quente (sem surpresas dessa vez).

Estava exausta e o banho faria bem. Ligou o rádio no máximo de volume, naquela estação que só tocava sertanejo (o “cornual” é claro) e deixou a água quente e relaxante correr pelo seu corpo, no melhor estilo “comercial de shampoo”.

- Alô? É do bombeiro? Aqui é a enteada da Ana Paula! É que tá pegando fogo aqui! Já vem? Anda logo!

O som da sirene foi abafado pela música do rádio que ela cantava como se estivesse num karaokê: ♪”Tá tão difícil pra você também, né?/Com o coração vazio, mas sempre de pé/ Buscando alguma direção”♫

De repente um machado arromba a porta do banheiro e a fumaça negra é misturada com o vapor da água do chuveiro. Ela grita, o bombeiro não quis nem saber, coloca Ana Paula nas costas e a leva até o quintal, onde foi coberta com uma manta.

Bom... estava tudo muito certinho, até que a tapada da enteada chegou em casa, achou que estava muito frio e resolveu colocar mais lenha no fogão. Só que, ao invés dos tocos de eucalipto, achou que os caquinhos dentro daquele saquinho à parte eram mais fáceis de manipular e jogou tudo lá dentro, sem notar que era o nó de pinho. Alguns momentos depois, o fogo subiu muito, as tampas das bocas voaram e a roupa começou a queimar.

- Pronto, dona Ana Paula, foi só susto!

Ela totalmente catatônica, tanto por vergonha e outro tanto por ódio da enteada ("essa vai se ver comigo depois"), agradeceu, voltando ao banheiro para se vestir.

Na volta ao quartel, os heroicos bombeiros estavam felizes do dever cumprido. 

- Gente! Viram quem era? Ana Paula que nada! Era a Natasha! 

 
Boa Noite! Eu sou o Narrador.

N. N: O trecho apresentado é da música "Pra te fazer lembrar" do cantor Lucas Lucco ("de quem?" -perguntou o Quati).

sábado, 18 de janeiro de 2014

Bate-Estaca

Escrever num blog é tarefa interessante: você pode ter somente um jeito de escrever, ter somente um assunto (ou vários) e pode criar histórias isoladas ou que possuam alguma continuação/referência de algum texto anterior. 

Ana Paula é uma personagem cujo esboço surgiu no “Contos de Fada?”; recebia visitas eventuais das irmãs que nunca aconteceram e de outros personagens, mas que “tomou corpo” mesmo aqui. Só que, para quem não acompanha direto o blog, às vezes fica difícil entender que o post atual é mais um post da mesma personagem e ai criei um marcador na coluna da direita para agrupar os temas, começando justamente pelas Histórias de Ana Paula (Natasha) e que também é uma referência à música sensacional do “Capital Inicial”.

Agora, com vocês, mais uma pérola dessa nossa “heroína” (só que não). 

Finalmente ela casou! Bom... já moravam juntos e registrar a situação foi mero detalhe. Mudaram para uma cidade maior e alugaram uma casa modesta, mas confortável, meio longe de tudo, beirando o rio... e ai que estava o perigo: o rio encheu, transbordou (na montanha falavam que “o rio botou pra fora”) e a casa literalmente dissolveu. 

Ah! Essas chuvas de verão são um problema, não é mesmo? Considerando tudo perdido, juntou o pouco que sobrou das roupas e aceitou um convite das enteadas (esqueci de comentar que o marido tinha duas filhas quase da idade dela) que alugaram uma casa de veraneio (paga pelo pai, claro) para uma temporada de praia. 

Nesse período “sensacional” ela cozinhou (duas enteadas, dois namorados, marido e gatos), manchou as mãos com limão, usado para preparar o peixe (esqueceram de avisar que limão e sol não é uma combinação muito boa), esqueceu do filtro solar e seus ombros viraram tomates, não lavou roupa porque faltou água e em alguns dias também faltou luz, encontrou aquela amiga bonitona de sempre (contando vantagem, claro) que estava num resort chique, mas conheceu um corretor de imóveis que ofereceu uma casa, numa outra cidade, que pareceu uma ideia interessante, pelas fotos que viu. 

Fruto de herança, os donos dividiram o terreno em quatro partes sendo que a casa ocupava uma delas e seria a primeira a ser vendida. O corretor deu a ideia que comprassem as outras três, posteriormente, e assim poderiam aproveitar melhor o empreendimento. Considerando que a opção era o “debaixo da ponte”, consultou o marido e toparam a empreitada “no escuro”. 

Chegando lá, exausta das férias (aliás eu gostaria de entender a graça em tirar férias justamente no mês de janeiro, onde todo mundo tem a mesma ideia... parecem aves em movimento migratório na direção da praia), a primeira coisa que notou é que a casa parecia afundada, já que o restante do terreno recebeu uma grossa camada de terra.

- Ah! Dona Ana Paula! Isso é para deixar tudo plano e depois fica muito bom para aumentar a casa, fazer um segundo andar, uma piscina, vai ficar ótimo! - explicou o corretor. 

Ela estava muito cansada para discutir e preferiu dormir. Logo cedo o marido viajou a trabalho e ela continuou na cama, até que uma barulheira de máquinas interrompeu seu sono. 

- Mas que porra coisa é essa? 
- Bom dia, dona Natasha! 
- Ana Paula, por favor! 
- É que pensei que já tinha visto a senhora antes num baile desses. 
- Hum... mas o que está acontecendo aqui? 

O sujeito, responsável pelas máquinas, informou que o restante do terreno fora vendido (“corretor filho da puta safado e mentiroso” - ela pensou) e estavam preparando as bases para a construção de um prédio, mas que ela não se preocupasse que o incômodo seria mínimo. Nem pensou em discutir, voltou pra cama e quase não acreditou quando um bate-estaca começou sua função, caiu reboco nos pés da cama e um barulhão representou o desabamento do telhado dos fundos. Saiu da casa puta irada quando o responsável gritou: 

- Foi “mals” ai dona Nat... Ana Paula. 

Colocou umas roupas na mala, juntou os gatos, de qualquer jeito, dentro do carro e, ao tentar liga-lo, lembrou que esquecera de abastecer. 

- Hoje não é meu dia mesmo! O que mais falta acontecer? 

Nisso o bate-estaca é acionado, a terra treme, um ouriço desaba do teto e... 

- Alô! É do SAMU? É que caiu um bicho na cabeça da dona Natasha! 
- Ana Paula, porra já te falei isso!

  
Boa Tarde! Eu sou o Narrador.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O Enigma

Por via das dúvidas ela resolveu dar uma “faxinada” na casa. Aquela amiga bonitona, que passou a sair com seu ex-pretendente (aquele que desdenhara), viria mais tarde para se arrumar, já que teria uma festa a fantasia e o modelo “bruxinha” era o ideal para a ocasião (“essa cobra ainda vai contar vantagem das saídas com ele” - ela pensou). 

Um ano se passou e ela não mais o viu. Bem que tentou uma dessas “mensagens do além”, naquele dia da nevasca, mas nem isso adiantou. Acabou ficando empregada em casa mesmo, esquentando no fogão, esfriando no tanque e pintar unhas, comprar vestidos e arrumar cabelo virou raridade, já que seu marido nunca ligou pra isso, além do fato que dormir, para ele, era mais importante do que fazer outra coisa mais interessante. 

Colocou os gatos pra fora, bem trancados no galinheiro vazio, certificou-se que não haveria qualquer peça de lego perdida pelo chão, deixou uma dúzia de toalhas no banheiro e ficou torcendo para não chover (ocasião que sempre acaba a luz). Tudo pronto, chega a “amiga”, feito o make up e a produção completa ficou inacreditável de tão bonita. Ela se foi, mas antes falou: 

- Ei! Se acabar cedo lá, de repente ainda dou uma passadinha por aqui pra te contar, viu! Tem certeza que não quer ir? 

Respondeu que não com a cabeça, para não desabar uma penca de palavrões, e sentou no sofá, para assistir televisão, o que gerou sono e acabou dormindo. Acordou às três horas da manhã com um som ensurdecedor desses carros “tunados” tocando “Thriller” do Michael Jackson. Na sequência, toca a campainha e ela logo achou que era a amiga “cobra”. Abriu e deu de cara com uma girafa.

- Posso dormir aqui essa noite? 

Achando que estava num pesadelo, fechou a porta, mas a girafa fora mais rápida e sentara no sofá. 

- Pra fora já! Você é fruto de um pesadelo! Chega! Não aguento essas meninas que todo ano vem me atormentar! 
- Que meninas? Quem me mandou aqui foi um quati. Ele disse que você poderia me ajudar. Senta que te explico. 

Já que não havia mais jeito, resolveu ouvir a girafa que explicou a situação. Umas bruxas, as mesmas que um dia deram uma dica para uma esfinge de Tebas, criaram uma charada, onde a pessoa que errasse seria transformada em girafa. Como muita gente errou, a coisa saiu do controle e os paparazzi passaram a perseguir a girafa original; o Datena e o Marcelo Rezende queriam entrevistas e até a “Playbicho” ofereceu uma grana para ela ser a capa do mês. Com tanto assédio, ela procurou o quati e ai o restante já foi explicado. 

Já comovida com o drama, a guria aceitou a missão, mas só por uma noite, já que o marido chegaria no dia seguinte. 

- Ah! Você é uma boa moça! Tive certeza disso, logo que entrei! Ei, tem comidinha ai? Eu gosto de geleia de morangos, mel, vinho, pão e queijos, você tem? 

Ela, então, preparou um lanche, no melhor estilo café da manhã. Comeram e ela perguntou: 

- E como era a tal charada? 
- Muito fácil! Era só dizer a primeira coisa que a pessoa abriu depois de receber uma visita inesperada no meio da noite. 
- Como assim? 
- Tipo: eu cheguei e fui inesperada, não foi? 
- Muito inesperada, por sinal! 
- Então, o que você abriu primeiro, já que também vim para o café? 
- Essa é fácil! Eu abri a geleia de morangos! 

Bummmm! 

Pela manhã, o marido chegou, 

- Você está meio diferente! Pera que vou descobrir o que é... hum... já sei! Essa roupa amarela e marrom e o salto alto não é isso?  


 Boa Tarde! Eu sou o Narrador.

sábado, 9 de março de 2013

E ela só quer dançar

Quando vamos a um show de um artista famoso que gostamos, procuramos materializar aquelas músicas que conhecemos e que tiveram algum significado em nossas vidas. Só que os caras tem que ganhar a grana deles e promover o CD novo e coisa e tal. Ai o show pode parecer uma grande decepção (só que não). 

Naquele dia havia o tal evento, num local meio distante, e várias pessoas mobilizaram transportes para não perder a oportunidade única. Animada com a possibilidade, inventou uma desculpa (iria a uma formatura), para escapar do crivo familiar, seu relacionamento dera uma pausa, por conta de uma viagem que ele fez, e ela arrumou um lugar numa van de outra cidade para não dar na pinta. 

A roupa não era adequada para um show de rock, já que um curtíssimo vestido de paetê preto, suficiente folgado, para não parecer vulgar, era tudo de bom para a tal formatura que nunca existira. Lá chegando, procurou permanecer incógnita e misturou-se à turba enfurecida de admiradores, quase em frente ao palco, quando os acordes de uma canção acordaram um enorme grupo de meninas, de salto 15 e saia... bom... também inadequadas para um show de rock, que se refrescavam fora da área do show propriamente dita, de saco cheio da monotonia que aquelas canções desconhecidas causaram. 

♪ “Tem 17 anos e fugiu de casa... Às sete horas na manhã no dia errado... Levou na bolsa umas mentiras pra contar... Deixou pra trás os pais e o namorado...”♫ 

Tudo virou uma grande confusão, já que elas queriam era dançar e ai não deu outra: um esbarrão, um passo sem pensar, salto 15 quebrou e ela torceu o pé e quase caiu no chão, não fosse o segurança que a pegou no colo, infelizmente deixando à mostra alguma intimidade impossível de esconder no micro vestido. 

- Ei! Conheço você da igreja! Você não é a …. 
- Ana Paula! - resposta mais que criativa – e não, não conheço você e você também não me conhece! 

Clima criado, show terminado, van foi embora e nem notaram sua ausência, como voltar para casa? Claro que o segurança simpático ofereceu carona, depois que o médico colocou ataduras no seu tornozelo. Pneus de carro cantaram, eles ficaram, passaram a noite juntos, foi bem melhor do que os hotéis baratos de antes e até que foi legal. Coisas do rock...  


Boa Noite! Eu sou o Narrador.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

E o mundo não se acabou

Naquele dia ela acordou preocupada: apesar da sua crença não permitir, ela teve a nítida impressão que o mundo estava com as horas contadas. 

Faltava uma hora para o início oficial do verão e o termômetro de mercúrio daquela casinha de enfeite, onde a moça saia no dia de sol e o homem saia no dia de chuva, já marcava insuportáveis 25º C, ao lado do fogão a lenha. Esquentou o café e tentou ouvir alguma coisa diferente, mas nem o sertanejo cornual habitual tocava em qualquer lugar: tudo era um silêncio só. Concluiu que ninguém iria sair de casa e todos ficariam rezando mesmo. 

Na sala, o sujeito com quem passou a morar (depois das inúmeras bobagens que ela fez), vestia a calça do pijama azul de listras brancas e uma camiseta regata velha; nem os dentes escovara e muito menos fizera a barba. 

- Quer saber? Foda-se Azar: vou pra rua tentar resolver o que eu já deveria ter resolvido há muito tempo. - pensou.

Claro que tudo era coincidência. Era só um dia comum, mas ela acreditou na tal conversa mole e aí resolveu que a despedida seria aproveitando, ao máximo, os últimos momentos da vida. 

Como não encontrou com ele, aquele sujeito que desdenhara no passado, nem ligou e partiu pra frente. Novamente incorporou Natasha, arrumou um baile funk pra dançar, beijou na boca um outro que ela nem se dava, gastou uma grana em cerveja e acordou no dia seguinte naquele mesmo hotel de beira de estrada da vez passada. 

Quando chegou em casa, a fofoca já tinha se espalhado. O tal sujeito não se fez de rogado e contou as estripulias, da noite anterior, para todos os amigos. 

Entrou de mansinho e viu a mesma cena: seu companheiro na sala, mesma roupa, a barba estava maior, escovar os dentes nem pensar. Ele deu bom dia e a mandou preparar o café. 

Cá entre nós, se isso não é o fim do mundo, realmente nada mais o é!

  


Homenagem a Carmem Miranda. Boa noite! Eu sou o Narrador.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Doces ou Travessuras?

Lá fora o dia começou com sol e calor, mas logo foi substituído por nuvens negras, ventania e chuvarada. Apesar da lua cheia, as nuvens devem atrapalhar a transformação de Chapeuzinho Vermelho em Lobo Mau (ah! Você não sabia disso? Se liga!) e o que deve rolar é o bailar de “corujas e pirilampos entre os sacis e as fadas.” 

Quase deixei este texto para outro dia. Muito trabalho, uma ponta de dor de cabeça, um programa legal na TV... Só que essa coisa de deixar pra depois ou pra última hora tem um nome: PROCRASTINAÇÃO! Nome bem feio né? Descobri isso vendo uma tirinha engraçada que estou até agora tentando descobrir quem fez, até porque pega bem citar a fonte. Ela anda pelas redes sociais e não anda sozinha, pois existem outras na mesma linha (se alguém souber a origem, deixe mais adiante nos comentários). 

Só que hoje é Dia das Bruxas. No bom “brasileiro”, no máximo é o Dia do Saci e da Cuca, porque Salem fica em Massachusetts e agora se chama Danvers. Dessa forma, deixo uma historinha, com personagens que já apareceram pelo blog. 

Sabendo que elas apareceram para o Narrador no ano passado, logo que acordou preparou doces e balas para ver se poderia agradar alguma coisa “haloweenesca” que aparecesse na sua porta. Uns dentes de alho também foram separados, por via das dúvidas, o que causou um certo fedor na ponta dos dedos. Foi tomar banho, mas tomou alguns cuidados, lembrando, também, daquela semana fatídica de junho. 

- Toc toc toc! - o coração quase veio na boca! 

Ela pulou do sofá, pegou o cestinho de doces, abriu a porta e já foi jogando tudo, como se ela fosse o cozinheiro da propaganda e os agrados fossem palmito. 

- Ei! Não sou a Clarice Falcão não, viu! “Cê tá loka”? 

Era a amiga, toda sorridente e agora toda lambuzada de confeitos. Uma bela moça, vistosa, cabelos pretos e muito simpática. Entrou e sentou. Conversaram e ela contou que ele a aceitara na rede social e respondia seus comentários. 

- E você desistiu dele, não é mesmo?
- Claro! Fique a vontade! “To notra”! 

A amiga foi embora e ela pensou: “To notra é o caralho coisa nenhuma! Como essa filha da puta ela tem coragem de aparecer por aqui pra me contar isso? Melhor receber bruxas!” 

Foi correndo para o computador, abriu a rede social e enviou uma solicitação de amizade, mas já era tarde. Ela deixou passar muito tempo. Seu relacionamento atual, fadado ao desastre, ainda existia e ela sempre deixava o término para outra hora (ficava sem coragem de terminar). 



  Boa Noite! Eu sou o Narrador.

domingo, 16 de setembro de 2012

Mudanças

Mudou o mês, “a boa nova já está nos campos”, o ano tem um dia a mais e chega a hora das mudanças. 

Falar de “mudanças” é confuso e talvez gere alguns textos com o mesmo título, já que podemos mudar de atitude, mudar de roupa e até pedir mudanças, como uma garotada tem feito por ai com os “Diários de Classe” (isso é assunto para outro dia, mas deixo linkado para quem nunca ouviu falar). 

Quando o Mago deixou a montanha, isso foi sofrido e muito difícil. Ao deixar o monte a coisa foi mais simples e sem dor. Somente foi e nada mais. Um movimento mágico, repentino e lá estava ele apreciando o por do sol com Ana. 

De qualquer forma nós, pobres mortais, fazemos mudanças de caminhão mesmo. Antes transformamos nossa moradia em praça de guerra: caixas, sacos, sacolas, malas, plástico bolha, fita adesiva, limpar a casa nem pensar, louça é resumida a um copo, um prato e alguns talheres... é uma zona! 

Carrega o caminhão, dá uma olhada no resultado e não crê que nada vai quebrar no percurso, chega no destino, descarrega o caminhão e a zona troca de lugar. A sensação é de que você está numa nave espacial com o Capitão Kirk, Senhor Spock e o restante da tripulação, todos batalhando para fazer funcionar alguma coisa que mantenha ao menos a navegação (escudos e torpedos não funcionarão). Quer beber água, não acha copo; quer guardar as roupas, tem que esperar montar os armários; internet só no notebook e com muita boa vontade... e quem já não passou por isso, não é mesmo? 

Depois que a coisa melhora, você pensa em fotografar a vista da janela. É diferente, tem menos (ficou horrível isso) árvores, mas cadê a porra da máquina? Então, você imagina que virou desenhista, acha um papel (papel toalha não serve), um lápis, desenha e o resultado você mostra para os amigos. 


Enquanto isso...

Vendo a casa sem cortinas, resolveu chegar perto e investigar. Andara triste, meio desiludida, pensando na encrenca que se meteu, criando ilusões de que está melhor do que antes (ledo engano) e verificar como ele estava foi uma ideia que pareceu interessante. 

A atenta vizinha, observando o movimento, logo falou: 
- Viu! Ele mudou! Foi rapidinho, mas veio aqui se despedir. 
- Ai! Nãaaaaao! Fudeu tudo! 
- Olha a boca menina! Vê se toma jeito!  

Boa Tarde! Eu sou o Narrador.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Sexta-Feira 13 - Dia do Rock, bebê!

Acordou tarde, aborrecida, pois, na noite anterior, uma foto na rede social, daquelas antigas que alguma amiga postara, justo aquela onde ela aparecia com o antigo namorado (a amiga também estava na foto), fora flagrada, pelo atual, numa fuçada que ela deu no smartphone, enquanto ele estava no banheiro da lanchonete fuleira que ele a levara. Boa lembrança de um tempo de maior glamour, que ela desdenhou, tornou-se o final de uma saidinha de quinta-feira. 

O dia estava lindo, o que significava que o frio lá fora era vinte vezes pior do que sentiu quando soltou das cobertas. Ao fundo, um daqueles rocks perfeitos, que ela detestava (preferia o sertanejo “cornual”) e o vizinho adorava, completava a cena grotesca de uma pessoa frustrada pela má sorte que ela mesmo cultivara. 

De pronto pisou numa pecinha de lego, do jogo do seu sobrinho, que alguém esqueceu de catar, soltando, mentalmente, meia dúzia de palavrões, já que isso não era de bom tom; na sequência, o chuveiro elétrico queimou justo na hora que a água acabou e os cabelos estavam cheios de shampoo; ao procurar a toalha, notou que esquecera de levá-la para o banheiro.

Correu para o quarto. A música estava mais alta e as paredes tremiam a cada batida da percussão, o que assustou um de seus gatos fazendo que ele se escondesse por baixo das cobertas e as transformasse em caixa de areia. 

Colocou uma roupa qualquer, fechou a porta do quarto (antes jogou o gato pela janela) e foi para a sala assistir televisão. Quase todas as emissoras transmitiam shows de bandas clássicas de rock, afinal, hoje é o Dia do Rock! 

E num lugar distante, observando uma bola de cristal, dois amigos conversavam:
- Acho que você exagerou, Adrielle! 
- Fica quieto, Menino! Sempre tive vontade de fazer isso! 

   
Boa noite! Eu sou o Narrador. Ah! A foto eu tirei no show da Annie Haslam com o Sagrado Coração da Terra em 2005. Homenagem ao Dia do Rock!

domingo, 10 de junho de 2012

Semana dos Namorados

A primeira coisa que ela fez, pela manhã, foi conferir seu celular: ele não enviara mensagem. Dera uma “incerta”, na véspera, em sua porta; quem sabe ele lembraria da data e daria os cumprimentos de praxe. Algum tempo passara desde o “desastre” do Ano Novo, ela ainda investira numa visita sem avisar, onde só faltou mesmo levar um “pé na bunda” literal porque, apesar de educado, ele falou tudo que ela não queria ouvir, incluindo o egocentrismo, que nunca entendeu bem do que se tratava.

- Ah! Minha filha! Você não dá sorte, mesmo! - informou a simpática vizinha – Ele viajou!

“Bom... hoje nada feito!”- ela pensou – "onde ele está não deve haver sinal."

Trocou de roupa, colocou casaco, bota e todo o vestuário compatível com o dia chuvoso e frio, onde a neblina confundia com a fumaça das diversas chaminés espalhadas pela cidade, e foi numa lan house verificar suas mensagens e comentários na rede social. Sua comemoração foi meio sem graça, algo em casa mesmo, pois os “amigos” nem apareceram. De qualquer forma, seu interesse era outro.

- WTF? Mas como isso? Ele não mandou nem um e-mail? 

Puta da vida Desolada, voltou pra casa, pulou na cama, enfiou a cabeça no travesseiro quando lembrou que, em dois dias, seria o fatídico doze de junho e se ela não tivesse desdenhado, há um tempo atrás, teria passado o final de semana do seu aniversário, num castelo europeu, degustando iguarias como marreco recheado e, de sobremesa, uma magnífica mousse de chocolate com cobertura de calda de amoras silvestres. E, claro, emendar mais uns dias e estender a comemoração até o Dia dos Namorados. 

Na falta do tal “cobertor de orelha”, complemento indispensável para resistir ao frio polar que assola até o Rio de Janeiro e a conhecida e quente Goiânia, resta para alguns a sequência “brigadeiro, sorvete e lágrimas” (essa eu ouvi hoje); mas deixo aqui, agradecendo a gentileza de autorizar a publicação, um primor de conceitos que nos brindou Andréa Pachá. Se pensarmos bem, é só uma semana comum como qualquer outra, que começa num domingo e termina num sábado, não é mesmo? 

CONCEITOS PARA A SEMANA DOS NAMORADOS: 1 - Namorar é delicioso, mas tá longe de ser um sintoma de normalidade. 2 - Não namorar não significa que você é problemático ou incapaz. 3 - A operação desencalhe, montada pela mídia, é pra vender presentes. 4 – A felicidade não é obrigatória o tempo todo. 5 – É possível, às vezes, ser feliz. Com ou sem namorado! 

  
Boa noite! Eu sou o Narrador. 

Nota: Andréa Pachá é escritora, juíza de Direito em Petrópolis (RJ) e ex-conselheira do Conselho Nacional de Justiça.